<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591</id><updated>2012-03-14T04:14:16.675-07:00</updated><title type='text'>O Tablóide Sujo</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>35</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-7455656661478237725</id><published>2012-02-27T19:54:00.000-08:00</published><updated>2012-02-27T19:55:34.321-08:00</updated><title type='text'>Marcapasso</title><content type='html'>Quando ela passa&lt;br /&gt;Meu peito descompassa&lt;br /&gt;E ameaça parar de bater. &lt;br /&gt;Mas ela passa, meu bem, ela passa. &lt;br /&gt;Pra nunca mais voltar,&lt;br /&gt;Pra nunca mais doer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-7455656661478237725?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/7455656661478237725/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=7455656661478237725' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7455656661478237725'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7455656661478237725'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2012/02/marcapasso.html' title='Marcapasso'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-8592548046927625616</id><published>2012-02-07T13:07:00.000-08:00</published><updated>2012-02-07T13:18:50.521-08:00</updated><title type='text'>Roberto ou O Homem Que Corria Atrás de Pombos - Parte III</title><content type='html'>Um amontoado de tralhas sobre a calçada suja. Livros, roupas, colchão - tudo amarrado com trapos e restos de corda. Uma chuva fina começou a cair, daquelas doloridas que, quando venta, parecem cortar a pele. Eu olhava aquela cena e tentava buscar algum sentimento, qualquer um, por aquilo que estava acontecendo. Eu devia estar triste, mas não. Também não estava desesperado. Apenas não sentia nada. Tinha um vácuo, um rombo infinito incrustado no peito.  Edith estava sentada no meio fio da calçada, com a maquiagem toda borrada pela chuva ou pelas lágrimas, o que fazia com que ela adquirisse feições ainda mais horripilantes. Levantou os olhos, me deu uma olhada rápida e disse, com a voz embargada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É o fim da linha, cara. &lt;br /&gt;- Tem nada, não, Edith. Vou me virar.&lt;br /&gt;- Toma, esse é o endereço de uma pensão barata onde a gente trabalha. Diz que você é amigo meu, eles te dão um desconto. Amanhã você pensa no que faz. E fica esperto com os bolivianos. Se tu bobear, levam tudo.&lt;br /&gt;- Pode deixar. Você é uma puta amiga.&lt;br /&gt;- E uma amiga puta, também - sorriu, mostrando os dentes amarelos e encavalados. - Agora vai, tá ficando tarde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomei um táxi, porque apesar de não serem muitas, minhas coisas faziam um volume que eu não conseguia carregar. Do banco de trás, podia ver o motorista pelo retrovisor: um velho com a cara toda fudida de rugas e perebas, barba mal feita, cabelo desgrenhado, óculos engordurados. Parecia um daqueles velhos nojentos que ficam batendo punheta nos puteiros da São João. Eles batem punheta ali mesmo, no meio de todo mundo - um copo numa mão, a rola enrugada em outra. Batem porque é de graça, e correm menos risco de ter um treco do que com uma cavalona de um metro e oitenta em cima. Aquele sujeito não me enganava, e eu sabia que logo ele ia puxar algum papo furado. Não deu outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chuva, hein? Virou o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu mudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Diga lá, rapaz, cê faz o que da vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me aproximei do banco dele, esbugalhei os olhos e sussurrei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou assassino. Matador de aluguel. Profissional. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse isso e me recostei de volta no banco, os olhos ainda estalados. Tentava ver a reação dele pelo retrovisor, mas ele manteve os olhos na pista. Só dava pra ver é que ele estava mais rígido, com a respiração ofegante. Pronto, já tinha me divertido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Brincadeira. Eu sou escritor...&lt;br /&gt;- Puta que pariu, ô cara, cê me assustou - riu, nervoso.&lt;br /&gt;- Não sei porque você tá tão feliz. Se eu fosse assassino, eu poderia te matar. Sendo escritor, eu posso não ter grana pra pagar. De qualquer jeito, você se fode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei na pensão arrastando as malas remendadas, me apresentei como amigo de Edith, recebi um olhar desconfiado do vigia noturno, peguei a chave e me instalei no quarto de hotel mais nojento em que já fiquei. E, olha, já tinha ficado em cada lugar... A cama parecia um caixote, o colchão era duro e estava forrado com um lençol amarrotado e com cheiro forte de suor com porra fresca. Me lavei com a água corrente que saía de um cano no teto, onde provavelmente deveria existir um chuveiro. Por fim, me sentei no chão e fiquei mirando fixamente uma mancha de bolor. Olha, até deu vontade de chorar, mas eu tava mais preocupado em dormir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei lá pelas quatro e meia da manhã com uma dor filha da puta nas costas. Me recostei na parede rachada e, sem muito motivo ou vontade, abri uma das malas amontoadas naquele cubículo. Tinham algumas roupas, lençois e uns papeis amarrotados entre as roupas e os lençois. Pastas de papelão abarrotadas de papeis: manuscritos, bilhetes, cartas, documentos, de tudo um pouco. Avistei uma das pastas, roxo púrpura, minha cor favorita. Era a mais grossa de todas. Segurei firme com a ponta dos dedos, fiz força e puxei: lá estavam os originais da minha obra-prima. Do fim para o começo, corri os olhos por cada página e fiz algumas correções à caneta - qualquer coisinha que tinha passado batida na leitura anterior - até que parei em uma página em branco, reservada para a dedicatória. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tive uma professora de português na oitava série - não lembro muito dela, só que tinha o buço peludo e bafo de cigarro. Apesar disso, ela gostava muito de mim. Uma vez, ela leu minha redação em voz alta, pra turma toda ouvir. Eu era um bicho do mato, não sabia onde enfiar a cara, mas no fundo, bem no fundo, eu gostei, porque foi naquele instante que eu percebi que já não importava tanto ser um dos primeiros escolhidos para o time de futebol (coisa que nunca aconteceu comigo). Aquela velhinha bigoduda merecia um lugar na minha dedicatória. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teve uma outra vez, na Bienal do Livro, não tinha muito tempo. Fiquei duas horas na fila de autógrafos do Shawn Baker, que pra mim é um dos maiores romancistas da atualidade. Eu era muito fã do cara. Apesar do meu inglês macarrônico, fiquei durante todo o tempo da espera ensaiando dizer que também era escritor e que seria a realização de um sonho se ele pudesse ler alguns textos meus que estavam ali. Parecia uma tiete assanhada - ah, se eu tivesse um belo par de tetas! Quando chegou a minha vez, disse o texto decorado e ainda completei: “oh, mister Baker, se tiver um time, of course. Ai dont uant tu bóder iú.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele nem se deu ao trabalho de levantar o rosto. Continuou autografando os livros e murmurou bem pausadamente, com aquele sotaque britânico carregado e uma calma irritante: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Damm writers. It’s all about you, isn’t it? No, I can’t read your shit. And you are already pissing me off.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu sangue subiu. Eu tinha vontade era de escarrar sangue naquela cara macilenta. Pederasta de merda! Saí batendo o pé e já ia me enfiando em outra fila quilométrica para bajular mais algum autor famoso, quando bati o olho em um estande quase às moscas. Sentado em uma cadeira de vime estava um senhor grisalho, bonachão e usando simpáticos óculos com aros redondos. Parecia irremediavelmente entediado. Me aproximei e ele se apresentou, solícito: Eduardo Simão. Aceitei o café que ele me ofereceu - com conhaque, que segundo ele, era o único jeito de suportar aquele frio desgraçado. Resumi a minha vida até ali e ele contou que vivia em Parati, numa vila de pescadores, era cronista e poeta. De vez em quando, escrevia para alguns jornais de São Paulo e do Rio, já tinha publicado uns trinta livros mas era meio avesso aos holofotes. O negócio dele era beber vinho e fumar uns cubanos à beira mar. Por fim, leu, ali mesmo, algumas coisas minhas. Gostou do que viu, me deu alguns toques, trocamos telefones e ele me convidou para comer uma peixada na casa dele qualquer dia desses. Eu detesto peixe. Lá se foram uns quarenta minutos de boa conversa - bem menos do que eu tinha passado na fila do Shawn Baker. Saí de lá feliz. Ao que pareceu, ele também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha professora da oitava série e o Eduardo Simão eram os únicos que mereciam ser homenageados por mim. A merda é que eu não lembrava o nome dela e ele, bem, ele não era ninguém famoso. Meu livro ia acabar ficando sem dedicatória. Fiquei encostado naquela parede suja do quarto da pensão, mordendo a caneta e pensando em qualquer coisa banal o suficiente pra me entreter até o sono chegar. Não demorou muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia clareou e eu acordei num pulo, suado, cheio de baba seca presa no bigode. Eu ofegava, tremia, mas não conseguia recordar com clareza o pesadelo que tinha acabado de ter. Como num estalo, me lembrei de um cartão que o tal do Eduardo Simão tinha me dado. Revirei minha carteira e achei um pedaço de papel amarelo e roto, quase apagado, onde era possível ler “ardo Simão - escrit”, e um número de telefone. Como não pensei nisso antes? Ele podia não resolver o problema da dedicatória, mas certamente podia dar um empurrãozinho no problema da editora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por favor, o seu Eduardo Simão se encontra?&lt;br /&gt;- Olha, aqui é a filha dele. Meu pai tá morando em Buenos Aires há dois anos. Você é amigo dele?&lt;br /&gt;- Eu não sou amigo de ninguém, moça. Tenho negócios a tratar com ele. Você tem algum endereço ou telefone onde eu posso encontrá-lo?&lt;br /&gt;- Tenho, mas não vou dar. Nem te conheço.&lt;br /&gt;- Ótimo. Dou meu jeito, sua menina mimada.&lt;br /&gt;- Vá pra puta que o pariu!&lt;br /&gt;- Vou sim, fique tranquila. Mas não sem antes dar uma passada em Buenos Aires.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-8592548046927625616?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/8592548046927625616/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=8592548046927625616' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/8592548046927625616'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/8592548046927625616'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2012/02/roberto-ou-o-homem-que-corria-atras-de.html' title='Roberto ou O Homem Que Corria Atrás de Pombos - Parte III'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-7932150082315229209</id><published>2011-10-10T22:24:00.000-07:00</published><updated>2011-10-10T22:27:40.877-07:00</updated><title type='text'>Roberto ou O Homem Que Corria Atrás de Pombos - Parte II</title><content type='html'>Comi um ovo colorido, um torresmo grande e um bolinho de salsicha. Aquilo ia me arrebentar mais tarde e eu sabia disso, embora não ligasse muito. Era aquilo ou feijoada, mas eu estava com pressa, não podia demorar. Caminhei por dois quarteirões, espantando pombos e pensando na vida, nas contas, no romance que eu não conseguia publicar. Era sobre um ricaço hipocondríaco que tinha medo de morrer e, mais ainda, medo de ser esquecido. Une, então, o útil ao agradável: forja a própria morte e passa a espionar os vivos para ver como se comportam na sua eterna ausência. Era uma puta história, só os engravatados escrotos das editoras não viam isso! Deviam morrer enforcados naquelas gravatas, ou engasgados com um belo naco de carne de alguma churrascaria caríssima, paga com o suor dos dedos de muitos escritores que mal podiam fazer três refeições num só dia. Lembrei da minha infância, do começo da juventude. Eu tinha uma vida boa. Não tinha tanta raiva no coração. Quando foi que eu fiquei assim? Já não lembrava. Já não tinha importância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Número duzentos e treze, era onde ficava o prédio. Entrei arrastando os pés no tapete embolorado e carcomido que ficava logo na entrada. Já ia forçando a porta do elevador pantográfico quando o porteiro me interrompeu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O senhor é o Martini?&lt;br /&gt;- Sou.&lt;br /&gt;- Tenho todos os seus livrinhos lá em casa. Meus filhos gostam. &lt;br /&gt;- Ótimo.&lt;br /&gt;- Achava que você era mais moço. &lt;br /&gt;- Tenho trinta e quatro, mas se essa conversa se alongar mais um pouco vou acabar completando trinta e cinco aqui mesmo. &lt;br /&gt;- Não entendi.&lt;br /&gt;- Escuta, não é nada com você. Mas eu realmente tô com pressa.&lt;br /&gt;- É justamente sobre isso que eu vim falar. O Seu Edgar disse que não ia poder te atender e que tá muito ocupado. Ele deixou o cheque aqui na portaria.&lt;br /&gt;- Ah, é? Não pode me atender e deixa meu pagamento na portaria como se eu fosse uma empregada diarista! É um safado, esse Edgar!&lt;br /&gt;- Minha mulher é diarista. Ó, toma aqui seu cheque que eu tenho mais o que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei o cheque. Estava dobrado ao meio, vincado. Junto, tinha um bilhete preso com um clipe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tuca,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O valor que tá aí no cheque já é com os descontos da revisão e dos atrasos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edgar”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo fazia sentido. O filho da puta tava pagando menos que o combinado, inventou uma desculpa esfarrapada e não quis me receber porque sabia que, no mínimo, eu ia berrar com ele no meio do escritório e mijar nas plantas da recepção. Era um cagão. Desamassei o cheque que tinha acabado de ser esmagado pela minha mão furiosa e olhei praquela indecência. Era realmente bem menos do que eu esperava (e precisava). Num acesso de fúria, amassei novamente a droga do chegue, joguei no chão e comecei a urrar descontroladanente, enquanto o porteiro assistia a tudo, mudo e incrédulo. Saí trotando escada abaixo e comecei a andar rápido pela calçada, fazendo o caminho da volta. Uma angústia começou a apertar o meu peito. Segundos depois, percebi que não era angústia - era asma. Parei e me encostei num poste, esbaforido e tentando respirar o máximo de ar que meus pulmões conseguíam aguentar. Quando minha respiração se acalmou, acendi um cigarro e fiquei ali, observando os carros. Fumar era libertador. Ali onde eu estava, não era proibido. Mas saber que faz o mal que faz, com todas aquelas matérias nos jornais, olhares de desaprovação, leis... Me sentia quase um James Dean envolto em uma densa corttina de fumaça cinzenta. Masquei o filtro do cigarro e cuspi no chão. Tentei, em vão, recompor a gola da camisa e, então, girei nos calcanhares e dei meia volta. Subi de novo as escadas do prédio - o cheque, que tinha virado uma bolinha de papel azul, descansava sobre o capacho. O porteiro me olhava assustado, como se temesse que eu sacasse uma metralhadora. Me abaixei calmamente, peguei o cheque, abri, alisei com os dedos e guardei no bolso. Ele permanecia ali, estático, aflito. Me aproximei da bancada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como é que chamam os seus filhos? - sorri para ele.&lt;br /&gt;- Antônio e Jennifer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coloquei a mão dentro da mochila e fiquei tateando. O porteiro enrijeceu ainda mais o rosto e começou a suar frio. Eu podia sentir o cheiro do medo, de certa forma, isso me fazia bem. Puxei um exemplar de um coloridíssimo livrinho infantil com o meu nome na capa. “Nina e a Terra das Framboesas”, era o título. Rabisquei um autógrafo qualquer na contracapa e estendi o livro ao porteiro. Ele suspirou, aliviado. Segurava o presente com as mãos trêmulas. Eu estava me divertindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O-obrigado, Seu Martini.&lt;br /&gt;- Tuca. Pode me chamar assim. E diga pros seus filhos continuarem lendo bastante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virei as costas e saí, com o cheque no bolso. Quem sabe aquelas crianças pudessem ter um bom futuro. Se estudassem bastante, não teriam que passar a vida numa portaria, aturando acessos de fúria de gente desequilibrada. Também não teriam que escrever historinhas estúpidas para faturar alguns trocados. Fariam algo realmente importante, realmente relevante, grandioso. Quem sabe. O que eu sabia, de fato, era que precisava descontar aquele cheque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia estava dando seus últimos suspiros quando eu dobrei a esquina da rua de casa. Meus pés doíam e eu apertava contra o peito um pequeno pacote de papel pardo, recheado de umas poucas notas de cem e cinquenta. Se alguém tentasse me assaltar, sabe Deus que reação estúpida eu teria. Entregar o dinheiro de mão beijada não era uma opção. Apertei o pacote ainda mais forte e tentei não pensar em nada. E estava quase conseguindo, quando ouvi passos apressados na minha direção. Estava começando a escurecer e eu não podia ver quem era. Também não tinha a quem pedir ajuda: a rua estava tão deserta, mas tão deserta, que por um instante torci para que eu estivesse interrompendo a gravação de algum filme de terror de baixo orçamento, que tudo não passasse de um sonho ou qualquer outra coisa estúpida que a gente pensa quando está se borrando de medo. Um vulto crescia e galopava na minha direção. Congelei. Quando finalmente estava a poucos passos, reconheci a voz rouca-anasalada que gritava meu nome, histérica e esbaforida: Edith Savóia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edith era uma travesti que morava no mesmo pulgueiro que eu - uma das poucas pessoas em quem eu confiava e uma das únicas com quem eu conversava regularmente. Tinha um metro e oitenta e cinco de altura, devia pesar uns oitenta quilos e tinha um visual assustador: cabelos esbagaçados até os ombros, tingidos de um rosa desbotado, maquiagem exageradamente colorida, escondendo um sem fim de rugas e talhos por toda a cara comprida. Nunca tinha visto Edith sem aquela fantasia de Curupira da Rua Augusta, mas podia presumir que era um homem terrivelmente feio. Talvez por isso tenha virado travesti. O nome de guerra tinha sido escolhido em homenagem a outra Edith, a Piaf. O sobrenome era por conta da Cruz de Savóia, em homenagem ao Palmeiras, por quem ela torcia e saía no braço todo domingo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tuca, Tuca! - ela berrava, quase aos prantos, enquanto tropeçava nos tamancos de acrílico - Entraram no seu apartamento, tiraram tudo de lá e jogaram na calçada. Corre lá, cara, antes que alguém roube!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continua.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-7932150082315229209?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/7932150082315229209/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=7932150082315229209' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7932150082315229209'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7932150082315229209'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2011/10/roberto-ou-o-homem-que-corria-atras-de.html' title='Roberto ou O Homem Que Corria Atrás de Pombos - Parte II'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-1314594723812178637</id><published>2011-09-16T12:48:00.000-07:00</published><updated>2011-09-16T12:50:39.663-07:00</updated><title type='text'>Roberto ou O Homem Que Corria Atrás de Pombos - Parte I</title><content type='html'>Vida de escritor não é mole, não. Ao passo que as histórias, personagens e cenários não deixam a mente de um escritor em paz, as contas, cobradores e intimações judiciais também insistem em incomodar. É perturbação de todo lado. Eu morava sozinho numa quitinete de trinta metros quadrados na boca do lixo de São Paulo, pertinho do Minhocão. Lá cabiam minhas roupas, que não eram muitas e ficavam penduradas numa arara velha de loja de atacado; uma escrivaninha manca, um rádio que tocava CD, uma vitrola, duas cadeiras de palha devidamente furadas, um frigobar velho, uma estante com alguns exemplares do Bukowski, do Hemingway, do Borges e uma ou outra coisa do Bolaño; um colchão com marcas de cigarro, uma privada, uma tv de vinte polegadas, uma cano de chuveiro com água quente, uma pia, um espelho comprido, um cesto de lixo grande, muitas folhas, cadernos, canetas e uma máquina de escrever- uma Olivetti automática, presente do meu pai. Tinha sido uma puta máquina, principalmente na época em que foi comprada, mil novecentos e setenta e pouco. Ficou suja, enferrujada, parou de funcionar. Acabou indo parar num ferro velho, junto com umas outras tralhas que estavam entulhando lá no apartamento. Como eu disse, aquela droga tinha só trinta metros. Eu, as minhas coisas e alguma eventual acompanhante - bem eventual, infelizmente - era o máximo que a física permitia caber ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As cartas se acumulavam na soleira da porta. Conta, panfleto de pizzaria, conta, conta, aviso, intimação, ameaça, conta, conta, conta. “Prezado Sr. Artur Martini: não detectamos o pagamento de sua conta em nosso sistema”. Óbvio que não detectaram, porra - eu pensava. Não paguei e, pior, nem lembrava do que se tratava. Eu tava tão na merda que já nem dava bola. Ia tudo direto pro lixo, sem escalas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um dia de inverno, por volta das onze de uma manhã bonita até demais pro mês de Julho. Eu gostava de ficar sentado no colchão, só de cueca, enquanto lia, ouvia música, qualquer coisa. O sol passava em filetes entre as divisões da persiana e esquentava a parte do colchão onde minha bunda descansava. Nada de interessante no jornal naquele dia. Virava as páginas com displicência, numa leitura dinâmica em que eu não entendia nada mas fingia, pra mim mesmo, que valia a pena. Preguiça. Quando o telefone tocou eu me assustei, apesar de já estar esperando uma ligação. O Edgar, um dos donos duma editorazinha que tinha publicado umas coisas minhas tava me devendo uma grana. Não era muito, mas pra mim era a salvação da lavoura. O Edgar também não era grande coisa, mas era um cara decente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alô - eu resmunguei com uma voz pastosa, meio rouca, como quem acaba de acordar. E eu tinha mesmo acabado de acordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fala, Tuca! Como é que tá? Escuta, você pode vir buscar aquele cheque? Os livrinhos venderam bem mais do que eu esperava, viu? A criançada adorou, só elogios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era assim, meio falastrão. Tava sempre animado, sempre de bem com a vida, adorava falar do casamento perfeito que ele tinha, dos filhos maravilhosos que o enchiam de orgulho, da igreja estúpida que ele frequentava. Conversa fiada. Eu sempre achei que gente que se preocupa demais em mostrar que é feliz está, na verdade, tentanto se convencer. O que prova que ele era um frustrado, exatamente como eu. Gente feliz demais me irrita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hum, legal. Pode deixar que eu passo aí. Vou comer qualquer coisa na rua e chego aí de tarde.&lt;br /&gt;- Ótimo. Te espero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No corredor que leva pras escadas do prédio, tive que me esconder da Dona Lilian, a velha matrona que me aluga o apartamento. Eu já devia três meses. Vi uma coluna e me enfiei atrás, esperando ela sair do meu campo de visão. Ouvi chaves, o trinco girando e uma porta se fechando. Pronto, a velha entrou em casa. Tudo limpo. Desci as escadas correndo, passei batido pela porta e, ufa, estava na rua. Meia hora depois eu estava com a barriga encostada num balcão sujo de alumínio numa padaria em Santa Cecília. O escritório da editora ficava a umas duas quadras dali. Eu bebia um café com leite, horrível, por sinal, e fumava. Tinham uns bêbados por lá e uns pedreiros de alguma obra por ali. Almoçavam como animais e engoliam copos e mais copos americanos com pinga até a metade. Porra, eu pensava, não era nem meio-dia. Meu café já estava morno pra frio, feito o dia que fazia lá fora. Eu matutava sobre aquela cena deprimente, cinza, sobre aquilo tudo que eu escrevia sobre as coisas e que as editoras insistiam em jogar no lixo. Eu costumava achar que era incompreendido. Era o cacete. O velho Bukowski dizia que era esse o mal dos escritores: pensarem que estavam acima de tudo e de todos, que sabiam mais da vida do que os outros pobres mortais, quando estavam, na verdade, comendo baldes e baldes da mesma merda. O fracasso, a miséria, a rejeição. Nada ou quase nada me separava daqueles bêbados, dos peões da obra, do chapeiro, do Edgar ou do portuga asqueroso que ficava atrás do caixa. Nem mesmo das moscas que sobrevoavam e davam rasantes nas coxinhas e nos croquetes expostos na estufa. Ou não. Talvez tudo não fosse tão desgraçadamente ruim, assim. Bukowski não passava de um bêbado filho da puta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continua.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-1314594723812178637?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/1314594723812178637/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=1314594723812178637' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/1314594723812178637'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/1314594723812178637'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2011/09/roberto-ou-o-homem-que-corria-atras-de.html' title='Roberto ou O Homem Que Corria Atrás de Pombos - Parte I'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-7664461375455000523</id><published>2011-05-18T14:52:00.000-07:00</published><updated>2011-05-18T14:53:16.016-07:00</updated><title type='text'>Brisa</title><content type='html'>Lá vem ela.&lt;br /&gt;Espia, espreita, espera.&lt;br /&gt;Encosta na porta, bate no trinco,&lt;br /&gt;Conta até cinco, se esgueira e entra&lt;br /&gt;Pela frestinha da janela.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-7664461375455000523?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/7664461375455000523/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=7664461375455000523' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7664461375455000523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7664461375455000523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2011/05/brisa.html' title='Brisa'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-3711604880706174364</id><published>2011-02-25T13:54:00.000-08:00</published><updated>2011-02-25T14:02:02.285-08:00</updated><title type='text'>Seção um, corredor três</title><content type='html'>Estava tudo escuro. Não um escuro preto, nem cinza escuro, não, aquele não era um escuro normal. Era um escuro cor de vinho, um escuro avermelhado. Um escuro com cheiro, cheiro forte, cheiro ocre, ferroso. Com gosto de sal. As pálpebras, pesadas, tremiam, se debatiam e permaneciam cerradas. Ele forçava, e não conseguia nada mais do que fazer escorrer ainda mais o sangue quente que saía em golfadas da garganta, viscoso, vivo, como uma lagarta que rasteja constante e lentamente para fora do casulo. O sangue descia pelo corpo e arrastava as gotas de suor, primeiro do peito, depois do tórax, até o meio da barriga, onde era contido pelo tecido da camiseta. Por onde o sangue passava, a pele se contraía e se elevava, aflorada pelo choque de temperatura. Ele presumia estar com o corpo gelado, não podia ter certeza, mas achava que estava frio como o chão de cimento queimado, sujo, com marcas das patas de quem passava por ali, todo os dias, principalmente nos dias de pagamento, aquelas patas, imundas, patas burguesas, pobres, patas dele, inclusive, que ainda deviam estar por ali. O chão onde ele estava estirado - duro como ele, frio como ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiu, pela primeira vez, uma dor aguda na parte de trás do pescoço, como um torcicolo que travava os movimentos da cabeça, que de tão inclinada fazia com que sentisse sua respiração rebater no chão e voltar a encostar na maçã do rosto. Não sabia se era por conta da posição, da queda, se era por culpa da bala alojada, se é que estava alojada, mas podia apostar que era a dureza do piso que causava o desconforto. Só de pensar em tentar mudar de posição o fazia enrijecer. Fechava os punhos e apertava, ainda que com dificuldade, a mão contra o próprio corpo, contra a camiseta empapada de sangue e suor. As pernas ele não sentia, nem conseguia movimentar e, curiosamente, isso não o desesperou. Apenas pensou que devia parar por um instante, e aquilo o fez rir, um riso interior, sem esboçar sorriso, riu por pensar que estava ali, imóvel, e mais parado não podia ficar. Depois, pensou que devia repreender-se por achar graça daquela situação, mas logo tornou a mudar de ideia e riu mais uma vez. Ficou, por alguns instantes, sem pensar em nada, ou pensando em coisas vagas, tolas, na janela da sala de estar que tinha deixado aberta - conseguia ouvir a chuva grossa ao longe, em meio ao zunido das vozes de quem provavelmente o cercava, pensava agora nos papéis que havia deixado sobre a mesa de centro, deviam estar ensopados, tão ou mais ensopados do que sua camiseta, mas ensopados de água, não de sangue. Quis ser aqueles papeis e estar encharcado de água. Numa última e despretensiosa tentativa, forçou os olhos para tentar enxergar ou, quem sabe, sendo bastante otimista, acordar, na remota possibilidade de que tudo aquilo fosse apenas um sonho doloroso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou com um pequeno feixe de luz branca, forte, que rompia a escuridão avermelhada. Aos poucos, foi recobrando a visão, ainda embaçada e a primeira coisa que notou é que haviam pares de pés diante dele, não muitos, quatro ou cinco, talvez de curiosos, funcionários do supermercado, não podia precisar. Só enxergava os sapatos e parte das calças - ao que tudo indica, eram todos homens. Viu também a lista de compras, pontilhada de vermelho vivo. Lembrou de como havia demorado para escrevê-la, a caneta trêmula sobre o papel, de como tinha sido difícil a decisão de sair de casa, tanto tempo depois. Há três semanas que ele não via a rua, que não ia ao médico, que apenas recebia visistas da irmã, que levava mantimentos, remédios, os remédios para a depressão, a maldita depressão que o estatelou numa cama e não o deixava sair de casa. Que o fazia molhar a cama, toda noite, justo ele, um homem feito, barbado, não era justo, humilhado pelo medo avassalador de morrer, era cruel, tudo era muito cruel. Então ele chorou. Uma única lágrima. Sentiu o sabor do sal e apreciou aquela lágrima, deixou-a na língua o máximo de tempo que pôde e engoliu com gosto, fosse ou não aquela a sua providencial e derradeira refeição. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se imaginou contando a seguinte história para os amigos: um sujeito sociopata, depressivo e cagão, que quase não saía de casa por medo de assalto, de bala, tanto faz, medo de morrer e das desgraças que via pela televisão. O tal sujeito resolve tomar coragem e ir ao supermercado - estava com a geladeira vazia, precisava se mexer, há dias que não colocava os pés na calçada. A passos rápidos, chacoalha a cabeça numa vaga e instintiva tentativa de afastar os pensamentos ruins, sem ligar para os olhares de estranhamento e o riso abafado de quem passa. Ele chega, cruza os caixas, o olhar sempre fugaz, passa pelas primeiras gôndolas, sente o ar frio da seção de laticínios, evita o contato visual com quem quer que seja, segue em frente, dobra à direita e para, diante da vitrine do açougue, aquela carne toda, pendurada, sente náusea. Sente calor, faz trinta e tantos graus lá fora e ele de jaqueta e capuz - estava frio no apartamento, o ar condicionado central estava forte demais, pensou que talvez devesse desligá-lo de vez em quando ou acabaria pegando um resfriado. Estava com sede. Caminha em direção à saída, onde as geladeiras de bebidas costumam ficar. Tem vontade de refrigerante, mas olha para baixo e nota o volume que se projeta dentro da jaqueta, estava engordando, tinha que maneirar e, portanto, decidiu que beberia água. Ou suco. Light. Seu celular toca. Está a poucos passos dos caixas, talvez oito ou dez, e já avista as geladeiras. Coloca a mão no bolso interno para atender o telefone, pensa ser sua irmã, preocupada, não tinha avisado a ela que iria sair. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parado aí! - um grito grave, logo atrás dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se vira, girando nos calcanhares, ainda com a mão direita no bolso da jaqueta. O homem que berrou é negro, forte, alto e veste um terno. Aponta uma arma, talvez fosse um segurança, ou um bandido disfarçado de segurança, mas esta última possibilidade nem lhe passa pela cabeça. Com o susto, saca rapidamente o telefone e pronto, fim da linha. A história acaba aí. Todos dariam longas risadas, pediriam mais cerveja e diriam para que ele deixasse de contar mentiras tão desmedidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já conseguia focalizar melhor o cenário em volta. Ouvia sirenes, podia ser a polícia ou uma ambulância. Ouvia também, agora mais alto, o burburinho dos curiosos. Talvez pareça banal, mas o que realmente lhe chamou a atenção foi uma das ofertas da gôndola em frente - quatro reais e vinte e sete centavos por um pacote de bolachas era um verdadeiro absurdo. Riu daquilo também. Espichou os olhos e notou uma câmera de segurança e, logo abaixo, aquela placa de aviso padrão, que pedia que ele sorrise. Prontamente, atendeu. Esboçou o melhor sorriso que suas forças permitiam. Por fim, fechou os olhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-3711604880706174364?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/3711604880706174364/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=3711604880706174364' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/3711604880706174364'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/3711604880706174364'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2011/02/secao-um-corredor-tres.html' title='Seção um, corredor três'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-6137213467937141446</id><published>2010-12-25T13:36:00.000-08:00</published><updated>2010-12-25T13:38:43.376-08:00</updated><title type='text'>O som do Natal</title><content type='html'>Boa tarde, tudo bem? Tá precisando de ajuda? Procurando alguma coisa especial? É pra você mesmo? Eu tenho esses modelos aqui. Acho que o 40 vai ficar melhor, essa modelagem veio pequena. Faz assim, experimenta o 40. O provador é logo ali. E aí, ficou bom? Quer que eu traga o 42? Olha, eu acho que o 40 caiu muito bem em você. Ficou ótimo! Não quer aproveitar e dar uma olhada nas camisas? Tão com um preço excelente... Vai ser só isso mesmo? Dinheiro ou cartão? Esse valor a gente parcela em até três vezes. Cartão, então? Pode pegar aquela fila ali, ó, que é a fila pra pagar com cartão. Eu que agradeço! Volte sempre e um bom Natal pra você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele dizia esse texto por horas a fio, tantas e quantas vezes fossem necessárias. Era dezembro, numa grande loja de departamentos de um shopping center. Eram muitas as vezes que aquele maldito texto era dito.  Já tinha se acostumado, é verdade. Aprendeu tudo o que sabia sobre vendas com um antigo chefe, quando ainda morava no interior. Quando se mudou para São Paulo, para estudar, foi o textinho decorado que o salvou de passar fome. Veio para morar com uma tia e fazer cursinho pré-vestibular. A tia deu para trás, de última hora. O cursinho negou a bolsa que tinha prometido. Sem tia, sem cursinho, sem a menor vontade de voltar pra casa da mãe e pra aquela vidinha de merda que levava.  Não que estivesse tudo perfeito, mas já tinha melhorado muito. Dividia apartamento com um amigo. Bom, o apartamento não era bem um apartamento, era mais um quitinete, quarto e cozinha. Até aí, o amigo não era bem um amigo. Era uma relação complicada, a dos dois. Um não gostava mais tanto assim do outro, mas o sexo dava pro gasto e as contas eram divididas. Acabava ficando por isso mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bip, bip, bip. Era esse o som do Natal. Bip, bip, bip. O barulho que hipnotizava, que inebriava todas as milhares de pessoas que passavam por aquela loja durante o mês. O tilintar das caixas registradoras, abarrotadas, o sorriso largo e vitorioso do gerente, as filas, cada vez maiores. A cada bip, um presente. A cada bip, uma satisfação. Código de barras, leitor, bip. Código de barras, leitor, bip. Código de barras, leitor, bip. O chacoalhar do sino e das moedas no bolso. Aquilo não era irritante – ao contrário, era um calmante. O bip não o incomodava. O movimento não o irritava. O ar condicionado forte não o resfriava. Nem mesmo o chato texto decorado provocava uma batalha entre seus neurônios. Exceto por uma pequena parte. Umas letras bobas, jogadas como qualquer coisa ao final da sentença. “Um bom Natal pra você”. Um bom Natal. Lembrava bem de uma ceia farta, irmãos, tios e até vizinhos ao redor. Da rua enlameada, por onde se aventurou um carrinho de brinquedo azul durante uma tarde inteira, sem parar. Da aspereza da barba do pai e do cheiro da loção. A promessa era de que até o ano novo estaria de volta, eram só alguns dias para resolver uns assuntos na capital. Depois, só lembra do velório. Lá também estavam os irmãos, a mãe, alguns parentes e vizinhos. Também estava o carrinho azul, que passeava entre coroas de flores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este ano, era a vez dele. As portas da loja já estavam semicerradas quando ele entrou na fila. Fila para pagar em dinheiro. Carregava, extasiado, uma pilha de roupas. Enquanto aguardava sua vez, planejava todo o ritual. Pediria para que embrulhassem tudo para presente, colocaria na sacola, tomaria o ônibus e desceria um ponto antes, para que todos na rua pudessem ver e invejar os volumes que carregava. Chegando em casa, acenderia as luzinhas que decoravam a pequena árvore, tomaria um bom banho, colocaria a melhor roupa, uma música romântica para tocar e apanharia uma garrafa de bebida que guardava para uma ocasião especial. Seus planos foram interrompidos pelo apagar de parte das luzes e por alguns colegas que, apressados, se despediam e desejavam seus votos. Ele olhava para dentro da carteira, um olhar quase incrédulo, como se aquele dinheiro não estivesse lá de verdade. Pela primeira vez em anos, estava. Era o primeiro Natal em que não precisava mais ligar para a mãe. Nem comprar presentes para ela. Nem mandar dinheiro. A última despesa que aquela mulher tinha deixado de herança havia sido quitada um mês antes. Enquanto chegava a sua vez, voltou a pensar em como seria aquela noite. Depois de apanhar a bebida, decidiu que sentaria em frente à árvore e esperaria até meia-noite. Quando o relógio permitisse, rasgaria os papéis de embrulho e abriria presente por presente. Murmuraria para si mesmo, como um mantra, as palavras que repetia para tantos desconhecidos: um bom Natal pra você. Era a vez dele. Código de barras, leitor, bip. Código de barras, leitor, bip. Código de barras, leitor, bip.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-6137213467937141446?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/6137213467937141446/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=6137213467937141446' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/6137213467937141446'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/6137213467937141446'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2010/12/o-som-do-natal.html' title='O som do Natal'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-8815091772731147236</id><published>2010-09-14T09:39:00.000-07:00</published><updated>2010-09-14T10:38:16.923-07:00</updated><title type='text'>O amor segundo os Beatles</title><content type='html'>Hello, goodbye. It was another day in the life. Better than that: it was another hard day’s night. Then I saw her standing there. The whole world stopped and all I could hear was a blackbird singing. My lonely heart started to beat faster, my head went far, far away, across the universe. I’ve dreamed. Dreamed about strawberry fields. “Please, please, me, come together. I wanna hold your hand!”, that’s what I was thinking about.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;So I took a deep breath and got close to her. My fear and shyness almost made me call for somebody help. But, suddenly, I’ve started to feel stronger and courageous. All my troubles seemed so far away.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Girl, you are such a honey pie. I’d love to take you to the sky, with diamonds. Unfortunately, all I have is a ticket to ride on a yellow submarine. But it’s ok. I feel fine. Because I know I can give all my loving to you. Close your eyes, and I’ll kiss you, tomorrow I’ll miss you, remember I’ll always be true. Just let it be.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;She smiled and said: “Look! Here comes the sun”.  I realized that was my only chance. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“I know, baby. And I also know that you are my Lady Madonna. So, don’t let me down and love me do.” Finally, we kissed. Revolution, that’s what I felt. Then I promised to take care of her, eight days a week. After all, love is all you need. And I love her.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-8815091772731147236?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/8815091772731147236/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=8815091772731147236' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/8815091772731147236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/8815091772731147236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2010/09/o-amor-segundo-os-beatles.html' title='O amor segundo os Beatles'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-6630215852925644082</id><published>2010-07-26T09:27:00.000-07:00</published><updated>2010-07-26T09:35:02.224-07:00</updated><title type='text'>Nervos</title><content type='html'>É a morte, é a morte&lt;br /&gt;A dor que me rompe o ventre&lt;br /&gt;E ruma ao norte&lt;br /&gt;É o nojo, o horror&lt;br /&gt;Dos pensamentos impuros&lt;br /&gt;Dos delírios escuros&lt;br /&gt;O pavor.&lt;br /&gt;Não cessa&lt;br /&gt;Destroi&lt;br /&gt;Tem pressa.&lt;br /&gt;Temo, e tremo&lt;br /&gt;Pela náusea da amargura&lt;br /&gt;Pela raiva fria e dura.&lt;br /&gt;Uma voz maldita&lt;br /&gt;Intensa e viva&lt;br /&gt;Murmura.&lt;br /&gt;Não passa&lt;br /&gt;Não posso&lt;br /&gt;Não vou.&lt;br /&gt;Engulo&lt;br /&gt;O choro ácido&lt;br /&gt;Que queima o rosto&lt;br /&gt;O resto&lt;br /&gt;E faz de mim&lt;br /&gt;O monstro que sou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-6630215852925644082?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/6630215852925644082/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=6630215852925644082' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/6630215852925644082'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/6630215852925644082'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2010/07/nervos.html' title='Nervos'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-286707775818173363</id><published>2010-07-22T13:01:00.000-07:00</published><updated>2010-07-22T13:16:21.634-07:00</updated><title type='text'>Esquerdinha</title><content type='html'>A sineta mal havia tocado e o garoto magrelo, ruivo e sardento já corria pelas calçadas esburacadas de Indaiatuba. Sacolejava a mochila repleta de livros e cadernos que se esbarravam ali dentro. Naquele dia, no entanto, o peso era especialmente maior. Tudo por conta de um bilhete escrito em uma pequena folha de papel, assinado pela professora, devidamente dobrado e guardado dentro da agenda. A cada passo que dava, sentia calafrios só de pensar na reação da mãe. O bilhete era um convite para uma conversa em particular. Fabinho não sabia o motivo da tal reunião, mas já se preparava para um eventual castigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A senhora sabe – começou a professora, com uma voz serena e ponderada – que o Fabinho não é nenhum anjo. Não sabe, dona Lúcia? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe fez que sim com a cabeça, temerosa do que estava por vir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas não é para falar das travessuras dele que eu chamei a senhora aqui. Queria falar sobre um talento que ele tem. Um talento incomum, fora do normal, algo realmente impressionante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe não sabia se ficava aliviada ou espantada. Nunca havia percebido, ao longo dos dez anos de vida do filho, nenhum talento fora do normal. Ou ele escondia muito bem, ou ela era muito desnaturada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A professora continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu filho é extremamente hábil com a mão esquerda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É isso? Sim, ele é canhoto. Mas e daí? – respondeu a mãe, de bate-pronto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A senhora não está entendendo – dessa vez, a professora aumentou o tom da voz e se arrumou na cadeira de couro carcomido – Seu filho é um mestre com a mão esquerda. Faz malabarismo com ela, mais de dez bolinhas de uma vez. Escreve de trás para frente, de baixo para cima. Planta bananeira, atira coisas. Quando joga vôlei, então...as outras crianças morrem de medo de ficar no time adversário. A esquerda dele é tão poderosa quanto à da União Soviética na época da Guerra Fria. Entendeu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Lurdes foi para casa com aquelas palavras martelando-lhe as ideias. E sem saber que atitude tomar. Não tinha motivo para brigar com o filho. Tampouco para elogiar. Sensata, acabou deixando para lá. Fabinho, que não era bobo nem nada, também não tocou no assunto. Só sabia que não estava de castigo e, para ele, isso era mais do que suficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como todo menino, foi na adolescência que Fabinho descobriu as maravilhas do sexo solitário. E, como uma boa parcela dos meninos, gostou da brincadeira. Virou um punheteiro de mão cheia. Mão esquerda, claro. Quando não tinha ninguém em casa, aproveitava cada minuto de ociosidade para homenagear as mulheres das capas das revistas que ele escondia debaixo do colchão. Eram quatro, cinco, dez vezes ao dia. Às vezes mais. Com o tempo, começou a notar que seu braço esquerdo estava musculoso e muito mais desenvolvido do que o direito. “É a punheta”, concluiu. No começo, tentou parar. Não conseguiu. Tentou usar a mão direita. Não era a mesma coisa. Por fim, desistiu. Seu braço esquerdo cresceu a ponto de rasgar as mangas de todas as suas camisetas. Obviamente, todos notaram aquela anomalia. No colégio, passou a ser carinhosamente chamado de Esquerdinha. O apelido ficou e Fabinho, sempre muito bem resolvido, levava tudo aquilo na esportiva. Bem, nem tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirando um ou outro pequeno desentendimento, Fabinho se dava bem com a turma toda, exceto por um garoto. Gordo, alto e insolente, Paulo Bolão era um típico valentão. Andava pelo colégio como se estivesse todo assado, se arrastando e trombando em quem encontrasse pela frente. Xingava, ameaçava, batia. Era temido por alguns, ignorado por outros, odiado por todos e enfrentado por poucos, muito poucos. Fabinho fazia parte desse último grupo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ei! Você aí do braço esquerdo! Tá achando que é forte, é? – berrou Bolão, que tinha acabado de devorar uma coxinha e estava com a boca besuntada de óleo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fabinho não deu bola e continuou andando, como se não fosse com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá surdo? – berrou de novo, dessa vez cuspindo restos de frango presos entre os dentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sou forte e venço você, fácil, fácil. Braço de ferro aqui e agora. Vai encarar? – Com a voz firme, Fabinho falava como se não estivesse morrendo de medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bolão soltou uma gargalhada rouca e abafada, que só alguém com pouco preparo físico e excesso de banha no papo poderia soltar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Feito! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentados em uma mesa de madeira, um de frente para o outro, encaravam-se como dois lobos ferozes. Fabinho semicerrava os olhos e rangia os dentes. Bolão, ao tentar imitá-lo, babava e cobria os olhos com suas pálpebras pesadas, tornando sua fisionomia quase idêntica à de um Bulldog. A disputa acabou logo, três segundos depois. O resultado foi uma mesa quebrada em duas partes, um braço quebrado em três (com direito à fratura exposta) e um vencedor: Fabinho. Começava ali uma trajetória vitoriosa como profissional da queda de braço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anos passaram, e Fabinho virou Fábio Pata Negra, em alusão à robustez de seu braço esquerdo comparada à de uma peça de presunto cru. Um nome que ganhou o mundo e traumatizou centenas de adversários. Disciplinado, não deixava o sucesso lhe subir à cabeça. “Treinava” todos os dias com a mesma frequência de quando era adolescente – para ele, era um prazer. Os inúmeros troféus e medalhas já não cabiam mais em sua casa. Mas, como todo atleta, um dia chegou ao seu limite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos quarenta anos, sofreu a primeira derrota de sua carreira. Há algum tempo vinha sentindo dores nas articulações e, certo dia, durante uma disputa, não conseguiu suportar. A quebra de sua invencibilidade virou manchete dos cadernos esportivos de jornais do mundo todo. Diante dos flashes e do bombardeio de perguntas após a fatídica partida, Fábio ergueu a cabeça e sorriu. O mesmo sorriso sincero do garoto travesso de trinta anos antes. Disse apenas que aquela era sua primeira e última derrota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que as dores e os problemas físicos não sumiriam de uma hora para outra. Para cumprir sua promessa, teria de se aposentar ou fazer milagre. Nem uma coisa, nem outra. Esperto como sempre, passou a contar aos seus adversários como fazia para ganhar e manter aqueles músculos do braço esquerdo. Desde então, Fábio Pata Negra reencontrou a glória e venceu cada partida que disputou.  Todas por WO.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-286707775818173363?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/286707775818173363/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=286707775818173363' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/286707775818173363'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/286707775818173363'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2010/07/esquerdinha.html' title='Esquerdinha'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-4142024061245591678</id><published>2010-05-10T12:59:00.000-07:00</published><updated>2010-05-10T13:03:49.699-07:00</updated><title type='text'>O boca-suja</title><content type='html'>Há cerca de quinze anos moro no mesmo endereço, em uma das principais ruas do paulistaníssimo bairro da Vila Mariana. Como em toda vizinhança, por aqui há botecos, escolas, padarias, mais botecos e algumas “casas de massagem”. Há também personagens. Um em especial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vestindo uma camiseta do São Paulo, costumava passar as tardes na varanda do primeiro andar de um pequeno prédio, a poucos metros do meu. Um velhinho, com cara de bonzinho, como aqueles que aparecem em comercial de previdência privada. Só aparência. Bastava passar em frente ao edifício para ouvir um xingamento: “Filho da puta!”. Homem, mulher, criança – ele não perdoava ninguém. As ofensas variavam de acordo com o gênero, o que prova que totalmente louco ele não era. Mulheres novas ele preferia chamar de vagabunda ou vadia. Homens mais velhos ele chamava de brocha, corno ou animal. Eu costumava ser chamado de vagabundo ou imbecil, mas de vez em quando ele me mandava tomar no cu. “Filho da puta” era um clássico, e acabava servindo para todo mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é preciso dizer que o sujeito nunca foi popular entre a maior parte dos moradores do quarteirão. Muitos se revoltavam, xingavam de volta, reclamavam. Alguns, assim como eu, apenas se resignavam. Com o passar do tempo, aquele senhor e sua boca suja viraram folclore. Eu estava tão acostumado que respondia a um xingamento com um entusiasmado “bom dia pro senhor também!”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia desses, caminhava em direção ao posto de gasolina. Estava despreocupado, mas já me preparava para ouvir o xingamento iminente. Dessa vez, no entanto, ouvi apenas o barulho dos carros. Estranhei e olhei para cima. Nem sinal da figura. Apenas uma placa de “aluga-se” com o número do telefone da corretora. O porteiro coversava com uma senhora que segurava o rosto com  uma feição preocupada. Espichei o ouvido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-...Pois é, a ambulância parou aí na porta de madrugada e levou ele embora. Logo de manhã veio um rapaz dizendo que era o filho e entregou a chave pro zelador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na semana que se seguiu passei por ali algumas vezes, esperando ansiosamente para ouvir alguns desaforos. Na outra semana, já não dei mais bola. Continuei passando por ali durante muito tempo e, só hoje, quase um ano depois, notei que a placa de “aluga-se” sumiu. Pela janela, apenas pude ver uma família jovem e feliz reunida na sala de estar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é difícil entender o que aconteceu. Nada mais natural do que alguém que foi esquecido enquanto vivo tenha sido, também, esquecido depois de morto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-4142024061245591678?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/4142024061245591678/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=4142024061245591678' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/4142024061245591678'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/4142024061245591678'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2010/05/o-boca-suja.html' title='O boca-suja'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-5001291834624646302</id><published>2010-02-18T05:08:00.000-08:00</published><updated>2010-02-18T06:22:54.484-08:00</updated><title type='text'>Verso da desesperança</title><content type='html'>Queria crer&lt;br /&gt;Que é tudo passageiro,&lt;br /&gt;Que há mais gotas d´água no mar&lt;br /&gt;Do que lágrimas no meu travesseiro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-5001291834624646302?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/5001291834624646302/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=5001291834624646302' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/5001291834624646302'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/5001291834624646302'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2010/02/verso-da-desesperanca.html' title='Verso da desesperança'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-2066157985076772657</id><published>2010-01-13T09:01:00.001-08:00</published><updated>2010-01-13T09:02:48.331-08:00</updated><title type='text'>A dúvida</title><content type='html'>Se danço lambada&lt;br /&gt;Se lambo a calçada&lt;br /&gt;Se me arrisco num vôo&lt;br /&gt;Não sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indeciso que sou&lt;br /&gt;Não sei se fico ou se vou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-2066157985076772657?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/2066157985076772657/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=2066157985076772657' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/2066157985076772657'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/2066157985076772657'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2010/01/duvida.html' title='A dúvida'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-4641311076009527909</id><published>2009-12-24T14:02:00.000-08:00</published><updated>2009-12-24T14:04:32.870-08:00</updated><title type='text'>A cartinha do ano 2</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Caros,&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Escrevo indignado. Juro que tentei segurar, mas ano após ano minha paciência foi se esgotando. E, podem acreditar, é muito duro dizer o que vou dizer. Não acredito mais.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;É como se eu despertasse de um sonho maravilhoso, e abrisse os olhos diante do mais tenebroso pesadelo. A realidade é fria, e a frustração não cabe em mim. Uma vida inteira de trabalho foi por água abaixo – não teve propósito algum. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;O que dói mesmo é saber que fui enganado, apunhalado covardemente por, literalmente, todo o mundo. Colegas de trabalho, nos quais sempre confiei, riem de mim pelas costas. Meu rosto está estampado em milhares de anúncios, cartazes; dezenas de shopping centers falando baboseiras em meu nome, sempre vinculado à maior lorota já inventada: crianças.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Seres mal-educados, ignorantes e que não dão o menor valor para nada. Também, pudera. Com a criação que recebem dos pais relapsos (que um dia também foram crianças, e da pior espécie), não podia dar em outra coisa. Crianças são vingativas, cruéis com seus semelhantes e subversivas. Não conheço uma que seja, de fato, criança. As meninas se maquiam, vestem-se como meretrizes e logo aprendem a usar o cartão de crédito. Os meninos são agressivos, desbocados e mimados. Uma vergonha.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Sei que vocês não dão a mínima para o que eu penso, e só devem estar preocupados com a porcaria dos presentes. Fiquem tranquilos. Como sempre, nesta noite farei o meu trabalho, e entregarei tudo o que tiver que entregar. Mas quero que saibam que farei com ódio no coração. Cansei desse papo de bom velhinho. Não acredito mais em crianças. Não acredito mais em nada.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Atenciosamente,&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Nicolau (Não sou papai de ninguém, e nem quero ser)&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;P.S: Talvez atrase um pouco, pois viajarei com uma rena a menos. O Rudolph finalmente saiu do armário, e fugiu com um jegue brasileiro.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-4641311076009527909?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/4641311076009527909/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=4641311076009527909' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/4641311076009527909'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/4641311076009527909'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/12/cartinha-do-ano-2.html' title='A cartinha do ano 2'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-7060932574430655840</id><published>2009-10-24T15:49:00.000-07:00</published><updated>2009-10-24T15:56:19.077-07:00</updated><title type='text'>Sexta-feira</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;Um dia bom&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;É noite.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;De amigos ébrios,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;Abraçados.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;De tantos casos,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;Emocionados.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;Esperando abrir&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;O céu azul.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;Cantando as notas&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;De &lt;i&gt;Love Me Do&lt;/i&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-7060932574430655840?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/7060932574430655840/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=7060932574430655840' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7060932574430655840'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7060932574430655840'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/10/sexta-feira.html' title='Sexta-feira'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-5679803951516686578</id><published>2009-10-18T20:22:00.000-07:00</published><updated>2009-10-18T20:23:55.848-07:00</updated><title type='text'>Show do intervalo</title><content type='html'>Na beirada do campo, o repórter de voz nasal enganchava as palavras umas nas outras:&lt;br /&gt;- Intervalo de jogo, final de campeonato torcida brasileira. Ouro Preto zero, Marianense também zero. Um jogo sofrido, dramático até aqui. O Ouro Preto precisa vencer a partida para gravar o nome na taça. O Péricles do Ouro Preto está chegando por aqui, vamos ver o que ele ta achando do jogo. Péricles, Péricles! Qual a sua análise do primeiro tempo?&lt;br /&gt;Era a chance do Péricles. Preto, feio, pobre, ruim de bola, de dar dó. Mas a mãe tinha obrigado a estudar, a ler. Enfim, a redenção:&lt;br /&gt;- Veja bem, meu caro. Um jogo não é apenas um jogo. O futebol é mais do que a bola. Quando entramos em campo, o gramado pulsa de emoção. È disso que é feito o esporte bretão: emoção. Cada gota de suor arduamente derramada de nossos rostos é um gol, é o auge, é o êxtase. Lutamos para isso, brigamos como gladiadores de um único leão. Isso sim é relevante. Bolas nos fundos das redes são meros detalhes. Não passam de obras parnasianas...&lt;br /&gt;Cobrindo o microfone com a mão, o furioso repórter cochichou:&lt;br /&gt;- Porra negão, para com essa palhaçada! Diz logo o que a gente combinou.&lt;br /&gt;Engolindo em seco, Péricles aproximou o microfone da boca e começou a falar, desanimado:&lt;br /&gt;- As duas equipes estão de parabéns. Um jogo difícil, mas vamos escutar as instruções do professor e correr atrás da vitória no segundo tempo.&lt;br /&gt;Naquele dia, Péricles venceu sua primeira final de campeonato. E concedeu sua última entrevista.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-5679803951516686578?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/5679803951516686578/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=5679803951516686578' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/5679803951516686578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/5679803951516686578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/10/show-do-intervalo.html' title='Show do intervalo'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-7556429673315385613</id><published>2009-09-10T21:04:00.000-07:00</published><updated>2009-09-10T21:07:54.877-07:00</updated><title type='text'>Ano Novo</title><content type='html'>&lt;span &gt;Essa é uma história um tanto boba&lt;br /&gt;Do devoto de Iemanjá&lt;br /&gt;Que vestiu branco, comeu lentilha, bebeu champanhe,&lt;br /&gt;Desceu cantando a caminho do mar&lt;br /&gt;Mas não pulou as sete ondas, que azar.&lt;br /&gt;Se assustou com o rojão&lt;br /&gt;Tropeçou na macumba&lt;br /&gt;Pisou na garrafa.&lt;br /&gt;Cortou o pé, passou uma faixa.&lt;br /&gt;O desfecho foi trágico:&lt;br /&gt;Ferida aberta na areia, na certa.&lt;br /&gt;Pegou bicho geográfico.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-7556429673315385613?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/7556429673315385613/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=7556429673315385613' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7556429673315385613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7556429673315385613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/09/ano-novo.html' title='Ano Novo'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-4158547253931747034</id><published>2009-07-26T23:39:00.000-07:00</published><updated>2009-07-27T18:20:42.641-07:00</updated><title type='text'>O último espirro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Com medo da maldita gripe, não podia mais ver uma torneira que ele lavava as mãos. Chegavam a ficar vermelhas, quase que em carne viva. Não deu uma semana, começou a usar máscara. Eu insistia:&lt;br /&gt;- O Michael Jackson usava. E adiantou? Pra morrer basta estar vivo, rapaz.&lt;br /&gt;Ele achava melhor prevenir, afinal, mal não poderia fazer. Mas isso é o de menos. Passou também a comprar remédios e mais remédios, como quem compra um cachorro-quente a cada esquina. Dizia que não tomava, mas guardava tudo no armário do banheiro caso precisasse. Depois disso, um passo de cada vez, começou a evitar o contágio de forma radical. Viu na televisão que não era bom frequentar aglomerações. Não saía mais para canto algum. Não tomava mais ônibus ou metrô, o que se tornou um problema, já que não tinha carro e era o transporte público que o conduzia para o trabalho. Foi de bicicleta por uma semana, e depois não apareceu mais. “Mais vale um desempregado vivo do que um empregado morto”. Foi o que me disse ao telefone. Sim, ao telefone, pois também não recebia mais ninguém em casa. Entregas deveriam ser deixadas sobre o capacho, e eram devidamente borrifadas com álcool e manuseadas com luvas cirúrgicas antes de passarem pela porta de seu apartamento. A empregada foi dispensada. A namorada também pois, segundo os especialistas, o beijo é altamente transmissivo. Como não tinha mais salário, as contas, todas passadas por debaixo da porta e incineradas após o recebimento, acumulavam. A luz, o gás, a internet, a água e o telefone foram devidamente cortados, quase na mesma época. Ficou então totalmente incomunicável. Por fim, deu seu último espirro. Morreu de tristeza. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-4158547253931747034?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/4158547253931747034/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=4158547253931747034' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/4158547253931747034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/4158547253931747034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/07/o-ultimo-espirro.html' title='O último espirro'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-7046774009762343760</id><published>2009-07-18T11:56:00.001-07:00</published><updated>2009-07-18T11:56:43.715-07:00</updated><title type='text'>Mujeres</title><content type='html'>Um turbilhão de elogios made in China&lt;br /&gt;Vale mais que um bilhão de flores, uma valsa no salão&lt;br /&gt;Um bravo poeta viajante, bolso furado e sem volante&lt;br /&gt;Perde a briga para os afiados dentes da vagina&lt;br /&gt;E caminha pela noite fria, na calda de um cometa errante&lt;br /&gt;Observando bem afortunados pobres de amor, ricos de tostão&lt;br /&gt;Mais um a tentar decifrar, e gritar&lt;br /&gt;Com uma rosa na boca, num grave portunhol galante:&lt;br /&gt;Mujeres, mujeres&lt;br /&gt;Que quieres?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-7046774009762343760?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/7046774009762343760/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=7046774009762343760' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7046774009762343760'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7046774009762343760'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/07/mujeres.html' title='Mujeres'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-692583011666810226</id><published>2009-05-26T21:53:00.000-07:00</published><updated>2009-07-30T13:08:00.611-07:00</updated><title type='text'>Pepeu</title><content type='html'>Isso aconteceu antes do Collor, eu acho. Sem dúvida foi antes, porque eu saí da Gazeta Popular na época do Sarney. Pois bem. Por lá tinha um redator chamado Pompeu Ávila. Eu, que era amigo chegado, o chamava de Pepeu. Sujeito engraçado, o Pepeu. Não por ser gozador ou piadista, mas pela maneira irritadiça e expansiva de ser. Era um jornalista das antigas, e conservava hábitos como suspensórios e o fumo excessivo. Foi, durante muitos anos, do caderno policial. O caderno policial, para quem não sabe (apesar de não ser difícil de entender o porquê), é como o exército. Depois de alguns anos, não há como não pirar.&lt;br /&gt;Antes de ser jornalista, o Pepeu foi escrivão da polícia militar, e só não virou investigador porque acharam que ele era esquentado demais, e podia acabar metendo os pés pelas mãos. Quando contava essa história, ele ficava tão puto que a careca virava uma uva de tão roxa. Terminou o curso de Direito, mas como não gostava nem um pouco de advogar, escolheu a última maneira possível e dentro da lei de matar sua sede por justiça. E assim, passou a ser repórter investigativo em um programa de rádio no interior do estado e, de lá, a redator da Gazeta Popular. O editor-chefe da época sempre dizia que “a arma do jornalista é a caneta”. O Pepeu aprendeu isso rápido. Ninguém narrava um crime hediondo com maior veracidade e fúria do que ele.&lt;br /&gt;Chegou um dia que ele não aguentou. Na verdade, quem não aguentou foi o coração do Pepeu. Botaram o coitado para cobrir a prisão de um seqüestrador, e ele acabou levando uma cusparada do dito cujo quando chegou perto para fazer uma pergunta. Aquilo foi demais. Ferveu feito uma chaleira depois desmaiou. E safena nele. A primeira de uma série de três. O que importa mesmo é que, depois desse incidente, promoveram o Pepeu a redator chefe do caderno de cultura. Ele adorava cinema, literatura e jazz, e era entendido. Tinha uma porrada de livros e discos, amontoados naquela zona que ele chamava de casa. Filmes também, principalmente em preto e branco. Até hoje, tudo em VHS, porque ele acha DVD uma merda. Enfim, o caderno de cultura combinava com ele, e tinha uma rotina bem mais light. Mesmo assim, diz a lenda que uma vez ele acabou saindo no tapa com um curador de uma mostra do MASP.&lt;br /&gt;Certo dia, sobrou um pepino na mão do Pepeu. Isso é comum nas redações dos jornais. Era um sábado, dois terços da equipe não estava trabalhando, e de bobeira mesmo, só tinha ele, tomando café com os pés em cima da mesa. Tratava-se de um caso policial. Uma enfermeira que batia em idosos em uma clínica estava em julgamento. Como fui eu quem deu a notícia, vi como ele espumava de raiva, dizendo uma porção de impropérios. No final, acabou indo.&lt;br /&gt;Apesar da cena, tenho certeza de que ele estava adorando aquela oportunidade. Tinha, enfim, mais uma chance de fazer justiça. De publicar algo, segundo suas próprias palavras, realmente relevante. Estava lá, no meio da multidão de repórteres, cuidando para que não escorregasse o bloquinho e sua caneta Parker com pena de ouro. Quando a acusada descia as escadarias do tribunal e o alvoroço se tornava ainda maior, o Pepeu matutava sobre o que perguntar. Sem que pudesse pensar em nada, o olhar dele e o da agressora de velhinhos se cruzaram. Ela, com uma cara cínica, expressão fria. Ele então esperou apenas que a tal mulher chegasse mais perto, e cravou a fina ponta da pena em seu pescoço, fazendo jorrar sangue para todo o lado. E quando foi detido e algemado pelos policiais que ali estavam, urrava para quem quisesse ouvir que a arma do jornalista é a caneta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-692583011666810226?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/692583011666810226/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=692583011666810226' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/692583011666810226'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/692583011666810226'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/05/pepeu.html' title='Pepeu'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-3327182690831172086</id><published>2009-04-26T20:05:00.000-07:00</published><updated>2009-06-01T14:25:09.144-07:00</updated><title type='text'>Porta com porta</title><content type='html'>Em toda a minha vida, fui a pouquíssimos velórios. Um tio aqui, um avô ali. Um vizinho de porta, era a primeira vez. Não nos falamos muitas vezes. Saíamos todos os dias, quase no mesmo horário. Eu às oito, ele às oito e dez. Quando eu me atrasava, conversávamos sobre cinema e amenidades. Ele era ator. E professor de teatro, que era o que pagava as contas, creio eu. Uma vez me deu um panfleto de uma peça sua que estava em cartaz. Fui, e confesso que ri bastante. Era um ator engraçado. Parecia ser uma pessoa engraçada. Tinha um humor ácido, típico dos amargurados. Mas se era feliz, não posso dizer com certeza. Se pudesse apostar, diria que não. &lt;br /&gt; Não era muito de gandaia. Vez ou outra o via tomando uma cerveja, ladeado de tipos esquisitos, num boteco na esquina de baixo. Também não costumava receber visitas. No máximo uma vez por semana, vinha uma moça. Namorada, suponho. Nos últimos meses, parou de vir.&lt;br /&gt; Trinta e nove anos. E paf (não sei se é a onomatopeia apropriada), infarto fulminante. Foi na madrugada de sexta para sábado. Chegou do trabalho, jantou e, pouco depois da meia-noite, aconteceu. Na segunda-feira, me atrasei. Saí às oito e dez. Ele não estava no hall. O elevador estava demorando, e a porta do apartamento dele, impávida, parecia me sugar. Em vão, tentei auscultá-la, mas foi o cheiro azedo que me alertou que alguma coisa estava errada. Com a ajuda do zelador, entrei no apartamento. Vi o corpo estirado entre a sala e o corredor. E é por isso que fui ao velório. A morte foi descoberta quase três dias depois. E por um vizinho de porta. Além de me meter sem querer nessa história, se eu não acompanhasse o féretro, passaria um bom tempo cheio de remorso. Caso contrário, não teria ido. &lt;br /&gt;  Na sala reservada do cemitério, levei um susto. Tinha gente saindo pelo ladrão, e eu já me perguntava se estava na cerimônia errada. Foi quando reconheci os esquisitos da birosca da esquina, que pareciam ter se multiplicado. Falavam alto, como se estivessem em uma convenção de fãs de “Star Wars”. Vi também a moça que frequentava o apartamento do falecido. Estava de óculos escuros, e confabulava com uma senhora corcunda, que poderia ser a mãe, uma tia ou uma carpideira. Ter pensado na última possibilidade fez com que me aborrecesse demais comigo mesmo. Dei uma última olhada no caixão e, sem esperar pelo enterro, virei as costas e saí pelo portão.&lt;br /&gt; Na calçada, desviando de vendedores de flores ambulantes, lembrei de uma frase de algum poeta, desses famosos: “A morte é a libertação. Morrer é poder deitar de sapatos”. Costumava achar graça nessas palavras. Dessa vez, foi diferente. Antes de deitar de sapatos, deitou de meias ou sem elas, noite após noite, durante trinta e nove anos. Páginas e páginas da história. Aquela triste manhã era apenas o posfácio. Nele, pululavam personagens e figurantes. Estavam também no miolo do livro? Não sei. Não sei nada sobre o cara que morou, durante cinco anos, a poucos metros de mim. Mas isso não faz mais diferença.&lt;br /&gt; A rua, abarrotada de gente. Indo e vindo. E eu, fitando meus pés. Não sei você, mas eu ando sempre olhando para baixo, acompanhando a guia, fingindo prestar atenção no cenário. Na verdade, encarar os outros me incomoda. Seus rostos dizem tudo e nada, ao mesmo tempo. A menina triste, de olhos inchados. Deve ter brigado com o namorado. Ou quebrado uma unha. Ou perdido o emprego. Ou ter sido estuprada, há cinco minutos. Era feliz ontem? Ou aquele senhor, frágil e enrugado, que tenta apertar o passo para atravessar a rua. Será que os motoristas impacientes, que buzinam repetidas vezes para que ele saia do caminho, o conhecem? Sabem se lutou pela pátria na guerra, ou se foi um grande jogador de futebol, esquecido pela mídia? Tem Alzheimer? Foi abandonado pela família, depois de tê-la sustentado a vida toda, com o digno suor da testa? Ou quem sabe tenha sido um homem violento, que batia na mulher e nos filhos, viciado em jogo e contraventor? E por que não? Os canalhas também envelhecem. Tenho medo. Medo de pensar na imensidão dos desconhecidos. Concluir que a minha história só é grande para mim (e o que será que pensam de mim quando passam?). Medo, principalmente, de reconhecer que sei tanto sobre os transeuntes quanto sei sobre meu vizinho de porta. Os colegas do escritório, minha empregada, meus amigos, minhas ex-namoradas. Há muito não paro para ouvir meus pais, meus avós. Não sei mais se os conheço, nem se cheguei a conhecê-los. No fundo, somos nós os figurantes das historias dos outros.&lt;br /&gt; Fui direto para o trabalho e, de lá, para casa. Não estava no clima para happy hour. No elevador, encontrei o casal que mora na cobertura. E claro, não deixaram de comentar o caso do meu vizinho. A moça aproveitou, inclusive, para me cutucar: “Isso que dá viver sozinho”. O marido concordava, e me olhava com cinismo. Deve pensar que eu sou gay. Eu não sou! Nada contra, longe de mim. Sou solteiro, moro sozinho, mas gosto é de mulher. É muita ignorância pensar isso de mim. Também, pudera. Eles mal me conhecem.&lt;br /&gt; Não deu uma semana, alugaram o apartamento da frente. Estranhei, porque essas coisas costumam demorar. Achei por bem me apresentar aos novos locatários, e foi o que fiz. Eram duas meninas, adolescentes. Vieram do interior do estado para cursar faculdade, e iriam dividir as despesas. Conversamos mais alguns minutos e, antes de deixar as portas abertas para que pedissem um pouco de açúcar quando precisassem, fiz uma pergunta que não soou tão bem para mim, que dirá para elas. “Saio às oito em ponto, todas as manhãs. E vocês?”. “Sete e cinquenta”, responderam em coro. “É a hora que nosso ônibus passa”. &lt;br /&gt; Naquela mesma noite, a lembrança do velório bateu em cheio. Fui acometido por um mal-estar indescritível, que jamais pensei poder sentir. Não preguei mais o olho. Pode parecer paranoia, mas rezei para que, na manhã seguinte, as novas vizinhas se atrasassem em exatos dez minutos. E dessem por minha falta, se não fosse pedir demais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-3327182690831172086?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/3327182690831172086/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=3327182690831172086' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/3327182690831172086'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/3327182690831172086'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/04/porta-com-porta.html' title='Porta com porta'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-9204044799959275213</id><published>2009-04-06T22:48:00.000-07:00</published><updated>2009-06-01T14:25:38.914-07:00</updated><title type='text'>Aos mestres</title><content type='html'>&lt;em&gt;Para Orlando Urbano Charlez e Julio Paulo Calvo Marcondes&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        De nada são feitos os mestres. Do alto de um tablado ou ao rés do chão, viviam eles. E viviam, na maior parte do tempo, em pleno exercício de suas magnânimas funções. E assim, desde sempre, encantei-me por estes seres curiosos. Eu, um aprendiz.&lt;br /&gt; Fantástico como tudo fica nu perto deles. As grandes filosofias são arrancadas de seus intocáveis pedestais, e esmiuçadas com a libertinagem de um arlequim. Ao passo que não sabem definir a educação, sentem de longe o cheiro da falta dela. E não com a náusea dos homens comuns. Pudera. Para eles, “homens comuns” é redundância.&lt;br /&gt; Salvam vidas antes de médicos, defendem antes de advogados, constroem antes de engenheiros. São mestres, muito antes de serem professores. E muitos nem chegam a sê-lo. São pais de alma. São birutas, de vento, bem avoadas.&lt;br /&gt; Uma hora, voam de vez. Com que direito? Voam, pois. São antes apenas homens comuns. E os homens comuns não são de nada. Nem de pó. E sem mais nem menos, deixam para trás as influências e as idéias. Deixam desamparados.&lt;br /&gt; De um deles, herdei as asas. E com elas, fui visitá-lo em busca de uma única resposta. Se de nada são feitos os mestres, de que somos feitos nós? “Ora, e não é obvio?”, perguntou, com um deboche típico. “São feitos de mestres”.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-9204044799959275213?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/9204044799959275213/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=9204044799959275213' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/9204044799959275213'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/9204044799959275213'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/04/aos-mestres.html' title='Aos mestres'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-5172866747764693125</id><published>2009-03-19T22:11:00.000-07:00</published><updated>2009-03-20T11:48:48.732-07:00</updated><title type='text'>A exilada</title><content type='html'>Veja bem, não estou aqui para fazer média, mas queiram ou não, este assunto me cabe sim. O que fizeram com a coitada não se faz. Andam dizendo por aí que a pobre não passava de uma imprestável, um entojo. Não sabem o que estão dizendo. E é por culpa de gente assim que ela foi escorraçada do país. &lt;br /&gt; Anos e anos de serviços muito bem prestados, interrompidos pelo bilhete azul. Dispensada, como uma empregada diarista. Nunca negou suas origens estrangeiras, é verdade, mas era aqui o seu lugar, aqui estavam suas raízes. Sem choro nem vela, voltou ao gelo. Gelo das longínquas terras européias. “De onde nunca devia ter saído”, lamuriou. Pela primeira vez, sentindo o frio que perpassava seu belo par de pontos, como sementes de papoula numa imensidão de chantilly, compreendeu e amargou o significado do nome que lhe foi dado: trema.&lt;br /&gt; Ainda tremelicando, a infeliz debruçou-se sobre o Aurélio como se fosse um antigo álbum de fotografias. Chorosa, arrastou-se sobre o aquífero, rolou até a consequência, montou no equino, abraçou o pinguim e pousou, tranquila, sobre a tranquilidade. E sonhou. Um sonho bom, onde em vez dela, foram cortados alguns ministérios e muitos membros da diretoria do senado brasileiro. Mal sabe ela que, por aqui, ninguém assina esse tipo de acordo. Nem em sonho.&lt;br /&gt; Caminhando e cantando, e seguindo a canção. O exílio é uma pena brutal para quem não incomodava ninguém (ou incomodava?). Pior, foi a trema quem nos deu o sangue, devidamente gotejada em cima do “u”. E agora, lascam-lhe a borracha. Tudo pela cultura do povo. &lt;br /&gt; Como num conto parnasiano, dizia um grande professor, os veadinhos continuam pulando, o vento ventando, a agua aguando. Enquanto isso, sinto falta dela. Muita falta. Apenas não mais do que o quinquênio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-5172866747764693125?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/5172866747764693125/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=5172866747764693125' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/5172866747764693125'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/5172866747764693125'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/03/exilada.html' title='A exilada'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-7566518750438801048</id><published>2009-03-05T21:16:00.000-08:00</published><updated>2009-05-31T22:43:14.342-07:00</updated><title type='text'>O Pós-Surto</title><content type='html'>Sentado em um banco de concreto, frio como mármore, sentia a chuva debruçar-se sobre os parapeitos dos meus olhos, fazendo companhia às lagrimas, trêmulas e displicentes. Duas crianças tilintavam as sinetas das bicicletas. Aproximaram-se devagar. Os dois, um menino e uma menina, buscavam meu olhar, fugaz. E quando o encontraram, abriram o sorriso mais ofuscante que já vi. Acenando com a cabeça, penso que a única coisa que eles não sabiam é que eu daria tudo para ainda ter rodinhas na minha bicicleta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-7566518750438801048?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/7566518750438801048/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=7566518750438801048' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7566518750438801048'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7566518750438801048'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/03/o-pos-surto.html' title='O Pós-Surto'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-5346887772731816825</id><published>2009-02-25T09:10:00.000-08:00</published><updated>2009-02-26T13:34:15.904-08:00</updated><title type='text'>Palpitações</title><content type='html'>Meu peito se explode em tambores&lt;br /&gt;Não como em outros amores&lt;br /&gt;Que já não arrepiam, nem fazem suar&lt;br /&gt;As palmas das mãos.&lt;br /&gt;Sobram falas, falta saliva.&lt;br /&gt;E transbordo o jorro fulminante de um tropeço&lt;br /&gt;Nem metade da metade de um começo&lt;br /&gt;Espantando o pesadelo de um fim.&lt;br /&gt;No chão, inerte e estatelado.&lt;br /&gt;Talvez o galope de um sagitário&lt;br /&gt;Tripudiou sobre minha balança, meu prumo.&lt;br /&gt;E na embriaguez de um amante sem rumo,&lt;br /&gt;Respiro um fio de paixão&lt;br /&gt;Guardo com ternura um nó de serpentinas&lt;br /&gt;Os beijos de confetes perfumados&lt;br /&gt;Que me enlaçam, me amarram e me enganam.&lt;br /&gt;Ventilam a máquina, ligeira.&lt;br /&gt;Por ela, e somente ela.&lt;br /&gt;Não como em outros carnavais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-5346887772731816825?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/5346887772731816825/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=5346887772731816825' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/5346887772731816825'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/5346887772731816825'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/02/palpitacoes.html' title='Palpitações'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-3413724960756585381</id><published>2009-02-18T13:05:00.000-08:00</published><updated>2009-02-26T19:46:06.913-08:00</updated><title type='text'>A moça do 23</title><content type='html'>Percebi uma coisa. Me apaixono com a mesma facilidade com a qual me desapaixono. Todos os dias, a paixão me arrebata freneticamente, loucamente, inúmeras vezes. No metrô, na praia, no elevador. Meu coração não escolhe hora, nem lugar. Em questão de minutos, vou do encantamento ao adeus, e do adeus à resignação. Cada uma delas segue um caminho, e eu sigo o meu. Ficam ainda na memória, mas não por muito tempo.&lt;br /&gt; Qual não foi minha surpresa, um dia desses me apaixonei em um lugar um tanto inesperado: na sala da minha casa. Eram duas e tanto da madrugada, e eu já não conseguia dormir. Éramos eu, o sofá e a televisão. Pulava de um canal para outro, sem muita vontade. Não sei bem porque, parei em um desses canais de compras que tomam conta da programação noturna. Lá estava ela. Linda, perfeita. Uma morena de sorriso fácil, olhos castanhos e amendoados, lábios fartos. Que voz. Uma voz suave, macia. Falava de molas ensacadas e vidros temperados como se recitasse lindos sonetos. E lá estava eu, de quatro por uma das vendedoras do canal 23.&lt;br /&gt; Dessa vez, fui pego de jeito. Esperava agora, noite após noite, que a tal moça aparecesse me vendendo algum carro ou me convencendo a levar meu animal de estimação a certo pet shop (eu quase ia, mesmo não tendo sequer um peixinho dourado). Ficava impaciente. Eram muitos anunciantes e, para cada anunciante, um vendedor diferente. E quando ela aparecia, eu entrava em êxtase. Sorvia cada palavra, aproveitava aqueles segundos como se fossem determinantes para que eu continuasse respirando. Assim que a moça saía de quadro, eu finalmente podia dormir. E ela participava docemente de todos os meus sonhos.&lt;br /&gt; Em uma dessas noites, desembarquei de mais um conto de fadas e me pus sentado na cama. Pela primeira vez, encarei o fato de que não sabia nada sobre ela. Nome, idade, estado civil, nada. Reparei apenas que ela não usava nenhuma aliança, que apesar de ser um bom sinal, não significava nada. Não tem cabimento estar apaixonado por uma completa desconhecida. Estava na hora de ser racional e, novamente, por circunstâncias que a vida impõe, me desapaixonar.&lt;br /&gt; Ainda assim, vira e mexe me pego tentando imaginar como ela seria por baixo daquele tailleur cinza e formal. E, quase toda a noite, ligo a televisão para ver se ela ainda está lá. Sabe como é. Não vou para a cama sem ela.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-3413724960756585381?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/3413724960756585381/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=3413724960756585381' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/3413724960756585381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/3413724960756585381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/02/moca-do-23.html' title='A moça do 23'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-7969098080021849183</id><published>2009-01-30T04:29:00.000-08:00</published><updated>2009-01-30T04:30:41.120-08:00</updated><title type='text'>Os altos e baixos</title><content type='html'>Eram um casal feliz. Tinham lá suas intempéries, mas após tanto tempo, passavam praticamente despercebidas. Há algum tempo, pensavam em mudar. Com os filhos já criados, soltos no mundo, decidiram transformar suas vidas por completo. Sair da cidade grande, da poluição, da loucura. Quando a velhice bate à porta, dizia a mulher, a qualidade de vida é primordial. Só não sabiam como, mas iam fazê-lo mais cedo ou mais cedo.&lt;br /&gt; E surpreso ficou o senhor, quando sua esposa entregou-lhe um prospecto de uma comunidade naturista. Pediu alguns dias para pensar e, diante da insistência da mulher e de sua já maturada flexibilidade, disse que não via mal em tentar.&lt;br /&gt; E tentaram. Alugaram uma casa dentro do condomínio de naturistas, e uma semana depois estavam lá, de mala, cuia e nuzinhos da silva. Logo na primeira oportunidade de contato social, o choque. Por incrível que pareça, o homem, apesar da idade avançada, não conteve seu vigor sexual diante das antigas moradoras da comunidade. Foi um bafafá. O comentário era geral, e as feições de desaprovação eram lancinantes. Embaraçados (principalmente a mulher), voltaram para a casa correndo. A esposa, envergonhada e irritada com a situação, cobrava explicações do marido. Ele tentava argumentar que não sabia como aquilo tinha acontecido, e que não se repetiria. Ela dizia que era o mínimo que ele poderia fazer. Pela primeira vez na vida, o homem se concentrou e rezou única e exclusivamente para conseguir justamente o que nenhum homem deseja, nem em um pesadelo: brochar.&lt;br /&gt; Com ou sem ajuda divina, e para o alívio do casal, o autocontrole prevaleceu e o resignado senhor murchou como uma rosa, mesmo diante de belas moças de trinta anos. Semana a semana, passaram a reparar outras notáveis diferenças. Tinham mais disposição, respiravam e dormiam melhor e exibiam ótima forma física. Estavam mais felizes. E como uma coisa puxa a outra, o sinal verde para relembrar o auge da paixão estava aceso.&lt;br /&gt;  A mulher tratou do assunto. Fez o jantar, colocou a mesa com dois candelabros, espalhou pétalas de rosa pela casa e tomou um banho. O jantar era de gala, mas os trajes eram os mesmos de sempre: nenhum. Comeram demoradamente, e logo em seguida a esposa atirou-se sobre o marido, com um vigor adolescente. Muitos minutos mais tarde, percebeu que o homem não estava com o menor apetite. Ele dizia à esposa que agora achava o sexo totalmente desnecessário, e que poderiam extravasar seus desejos através de uma boa sessão de meditação. A mulher, abismada, ouvia a tudo com a boca escancarada. Na verdade, completou o marido, tinha se esforçado tanto para controlar sua sexualidade, que agora não subia mais. Nem por decreto. Mas para ele, isso não era o fim do mundo. Acreditava que ela poderia se acostumar, assim como ele o fez. Mas não. Como sempre, a exigente esposa insistiu até convencer o marido a resolver seu problema o quanto antes, mesmo que para isso tivesse de procurar um médico especialista.&lt;br /&gt; Novamente, o homem atendeu às ordens da esposa. Desta vez, porém, com a certeza de que ela só poderia estar, literalmente, de sacanagem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-7969098080021849183?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/7969098080021849183/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=7969098080021849183' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7969098080021849183'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/7969098080021849183'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/01/os-altos-e-baixos.html' title='Os altos e baixos'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-6157766367834555763</id><published>2009-01-07T19:56:00.000-08:00</published><updated>2009-01-09T22:50:18.419-08:00</updated><title type='text'>A tal da independência</title><content type='html'>Após vinte anos casados, Mônica não suportava mais o papel que lhe cabia na relação e na estrutura familiar que se estabeleceu: senhora do lar. Estava cansada dos rotineiros afazeres domésticos, de passar os dias atrás dos filhos (que eram apenas dois, mas valiam por muitos) e, acima de tudo, de se sentir irremediavelmente dependente do marido, Paulo. E não se tratava apenas de dinheiro – tinham uma vida confortável afinal. Apesar de não admitir sequer para si mesma, o que Mônica tinha era inveja. Inveja da liberdade e da auto-suficiência do marido. Pior: carregava consigo o fardo de uma grande frustração.&lt;br /&gt; Certa noite, colocou um vestido justo e estampado que há anos mofava no fundo do armário, maquiou-se, perfumou-se e esperou o marido chegar do trabalho. Quando ouviu o ranger do trinco da porta da frente, pôs-se em pé, dedo em riste:&lt;br /&gt;- Escuta aqui! Estou pelas tampas com essa rotina! Nasci para ser uma estrela, e não para esquentar a barriga no fogão. Vou voltar a ser cantora.&lt;br /&gt;O marido, ainda desconcertado, tentou acalmá-la. Logo depois, pediu que pensasse melhor. Ponderou que as crianças precisavam dela, que ele mesmo precisava dela, principalmente enquanto estivesse fora, provendo o sustento da família. Nada adiantou. Irredutível, fincou o salto agulha no chão e bradou:&lt;br /&gt;- Ou me deixa cantar ou eu peço o divórcio.&lt;br /&gt;Isso bastou para que Paulo concordasse com a idéia de Mônica. Ofereceu-se, inclusive, para pedir a um amigo, dono de uma famosa boate, que desse uma chance aos dotes artísticos de sua indignada esposa.&lt;br /&gt; Pedido feito, pedido aceito. E na semana seguinte, lá estava Mônica em cima do palco da tal boate. O marido, alguns amigos e familiares dividiam uma mesa com visão privilegiada. E não demorou muito, iniciada a apresentação, para que todos ficassem extasiados com a voz de Mônica. Principalmente Paulo que, boquiaberto, concluiu orgulhoso que era casado com uma grande cantora. Definitivamente, uma diva.&lt;br /&gt; A ascensão foi rápida. O primeiro show foi um sucesso, o que fez com que Mônica recebesse incontáveis convites para cantar em outros lugares. Com o passar do tempo, chegava a fazer até cinco apresentações por semana. E isso passou a incomodar Paulo. Não era para menos. Via a esposa chegar tarde, descabelada e exalando um forte cheiro etílico. E via o sorriso triunfante em seu rosto. Sorriso este que, para ele, tornou-se motivo de inveja.&lt;br /&gt; Em dado momento, Paulo não aguentou. Enquanto a esposa fazia mais uma de suas apresentações, levantou-se da cama e foi para a sala. Mônica só chegou às quatro da manhã. E o marido, enfurecido, descarregou-lhe um caminhão de odiosas palavras:&lt;br /&gt;- Você é uma irresponsável, péssima esposa, mãe relapsa! Só pensa em você, e danem-se os outros. Além do mais, não duvido nada que esteja me traindo com um boêmio qualquer!&lt;br /&gt;No mesmo instante, Mônica começou a chorar copiosamente. Disse-lhe que era um ingrato, pois estava, em segredo, guardando o dinheiro que ganhava para financiar uma viagem pela Europa, com toda a família.&lt;br /&gt;- Eu sabia que você estava fingindo, que jamais me apoiou de verdade. – balbuciou, entre uma lágrima e outra. E decretou: - Você não me ama.&lt;br /&gt;Paulo, desesperado, atirou-se aos pés de Mônica, implorando por perdão. E gritava, para a vizinhança toda ouvir, que daquele dia em diante nunca mais reclamaria. E claro, disse que a amava mais do que a própria vida.&lt;br /&gt; Ambos recompostos e reconciliados, foram se deitar. Ele não conseguia dormir. Enquanto isso, apreciava o sorriso triunfante que, mesmo dormindo, ela ostentava. Naquela noite, Paulo descobriu que mais do que uma grande cantora, Mônica era também uma grande atriz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-6157766367834555763?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/6157766367834555763/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=6157766367834555763' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/6157766367834555763'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/6157766367834555763'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2009/01/tal-da-independncia.html' title='A tal da independência'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-2756365453748150289</id><published>2008-12-24T13:19:00.000-08:00</published><updated>2008-12-24T13:20:06.448-08:00</updated><title type='text'>A cartinha do ano</title><content type='html'>"Querido Papai Noel,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Sei que há muitos anos não sou um bom menino. Me comporto mal e vivo fazendo besteira. Pior: muita gente me odeia por isso. Sei que não é desculpa, mas também nunca tive boas influências em casa. Ainda por cima, dizem que minha inteligência é, digamos, limitada. &lt;br /&gt; Saiba que não sou mal agradecido. Sempre recebi sua visita no Natal. Quando eu era criança, certa vez o senhor me deu um aviãozinho. Eu adorava fingir que estava bombardeando algum país que não tivesse aceitado minhas exigências políticas. Sabe como é, coisa de criança. Anos mais tarde ganhei não um, mas uma frota de aviões. Todos de verdade, e com um poder de fogo incrível. Te agradeço imensamente, Papai Noel.&lt;br /&gt; Como o senhor deve saber, estou me aposentando (pelo menos por enquanto). Por isso, estou de mudança. E já que não conheço meus novos vizinhos, gostaria de ganhar um conjunto de minas terrestres, e uma bazuca com mira laser. Só por precaução.&lt;br /&gt; Antes de encerrar, tenho uma queixa a fazer. Após tantos anos esbanjando armas cada vez mais modernas, capazes de destruir com classe e extrema destreza, recebo em troca duas pobres sapatadas. E ainda por cima, falhas. Sendo assim, acho que o senhor deveria melhorar os presentes dados no Oriente Médio. Pois mesmo não sendo muito querido, tenho certeza que ainda sou um grande mau exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinceramente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;George W. Bush"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-2756365453748150289?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/2756365453748150289/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=2756365453748150289' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/2756365453748150289'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/2756365453748150289'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2008/12/cartinha-do-ano.html' title='A cartinha do ano'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-2363128737960344623</id><published>2008-12-04T20:10:00.001-08:00</published><updated>2008-12-04T20:16:59.198-08:00</updated><title type='text'>Aterra</title><content type='html'>Sou de uma terra&lt;br /&gt;Desterrada, pobre terra,&lt;br /&gt;Que em se plantando, tudo dá.&lt;br /&gt;Até plantando bananeira,&lt;br /&gt;Juro, sem brincadeira,&lt;br /&gt;Até dá pra se virar.&lt;br /&gt;E dá de costas, virado.&lt;br /&gt;Que bela vista, que achado.&lt;br /&gt;É que lá do corcovado, &lt;br /&gt;Tem chumbo pra todo lado.&lt;br /&gt;Chumbo do grosso, do médio,&lt;br /&gt;À frente, atrás, que remédio.&lt;br /&gt;É a festa do chumbo pro alto.&lt;br /&gt;E de tão chumbado, &lt;br /&gt;Chove chumbo no planalto.&lt;br /&gt;E é um tal de desce e sobe do salto,&lt;br /&gt;E tira, a tira da sandália de borracha,&lt;br /&gt;Cromo alemão, sapatilha, &lt;br /&gt;Sapatão, scarpin e bombacha,&lt;br /&gt;Calcados no encalço do solo incauto.&lt;br /&gt;O sabiá pigarreia, &lt;br /&gt;No alto do pé da laranjeira,&lt;br /&gt;Agora é o caroço, &lt;br /&gt;O traço do traço.&lt;br /&gt;Que pena, não tem mais pena,&lt;br /&gt;Nem frufru e nem laço,&lt;br /&gt;Bico doce, meia boca,&lt;br /&gt;Casca e bagaceira.&lt;br /&gt;Falta o verde, &lt;br /&gt;Das matas virgens das moças puras,&lt;br /&gt;Da esperança, da pujança,&lt;br /&gt;Sorri-nos a encher a pança,&lt;br /&gt;Depiladas, depenadas, defloradas,&lt;br /&gt;Lisinhas que só.&lt;br /&gt;O abafado, do leque ao ventilado, &lt;br /&gt;Um marasmo de dar dó.&lt;br /&gt;Encravou-se o fio do bigode,&lt;br /&gt;Vê só, como é que pode?&lt;br /&gt;Trato é o carimbo no contrato,&lt;br /&gt;Gerson, gatuno e gaiato,&lt;br /&gt;Do provolone ao prato,&lt;br /&gt;De tão gordo o rato quase explode.&lt;br /&gt;Tem sorriso no pé de côco,&lt;br /&gt;Gente que ora peca, ora ora,&lt;br /&gt;Pede, ri, sofre e chora,&lt;br /&gt;Cara-de-pau, que nem a vergonha cora,&lt;br /&gt;Dá liga.&lt;br /&gt;Dedo na ferida, em figa,&lt;br /&gt;Come a unha até o toco.&lt;br /&gt;Levantou o nêgo,&lt;br /&gt;Espirrou o nego,&lt;br /&gt;Amansou o leigo,&lt;br /&gt;Arrebentou o ego.&lt;br /&gt;Pra quem acha pouco,&lt;br /&gt;Ainda por baixo, é tudo oco.&lt;br /&gt;Mais uma vez, novamente e de novo,&lt;br /&gt;Os bobos na casca do ovo.&lt;br /&gt;E tudo que pinta de novo,&lt;br /&gt;Pinta na bunda do povo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-2363128737960344623?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/2363128737960344623/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=2363128737960344623' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/2363128737960344623'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/2363128737960344623'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2008/12/aterra.html' title='Aterra'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-3544722122305794321</id><published>2008-11-16T19:16:00.000-08:00</published><updated>2008-11-16T19:22:19.609-08:00</updated><title type='text'>A (sem crase mesmo) primeira vista</title><content type='html'>“Estou cagado?”. Foi a primeira coisa que eu pensei ao ver que a moça me fitava insistentemente. Passei as mãos no rosto procurando alguma sujeira. Não contive o sorriso de canto de boca. Ela retribuiu o riso. Também parecia achar graça. Notei que ela não me olhava com nojo, nem com desprezo; Era um olhar obtuso, um misto de admiração e desejo. Que situação. A moça era bonita, alta, elegante. Tinha um quê de austeridade. Mas aquilo não era normal. O farol já ia abrir, e não estávamos a sós naquela esquina. Era como se estivéssemos. Horário de almoço de uma terça-feira. Terça-feira não é dia de se apaixonar. Ou melhor, terça-feira não é dia de nada, serve só para cumprir a rotina. E o farol nada de abrir. Ela fez menção de desviar o olhar, e mais rápido do que nunca, sorri escancaradamente. Mais uma vez, ela retribuiu. Gargalhou gostosamente, e suspirou como uma colegial embaraçada.&lt;br /&gt; O luminoso verde acendeu para quem estava a pé. Acenei com a cabeça, e coloquei o pé no asfalto. Ela fez o mesmo, apertou o passo e se adiantou. Emaranhou-se no meio da multidão, do mar de cabeças que também atravessavam a rua. O desespero bateu em cheio. Corri, afastando os transeuntes, que mais pareciam troncos de madeira maciça. Finalmente, avistei a moça. Aproximei-me, e antes que passasse à sua frente, ela olhou em minha direção, como se tivesse pressentido a minha presença. Não tive coragem de perguntar seu nome. Andamos lado a lado, na mesma calçada. Ambos calados, e dizendo mais do que poderíamos ser capazes de imaginar.&lt;br /&gt; O prédio onde eu trabalho ficava a poucos metros. Era o fim, antes mesmo de começar. Fechei os olhos ao dar de cara com a soleira da porta do edifício comercial. Respirei fundo e, com dor no coração, entrei. Para minha surpresa, ela também entrou. Parecíamos dois adolescentes enquanto esperávamos o elevador. Ela desceu no sexto andar, não sem antes contemplar meu rosto por alguns segundos e mostrar um sorriso cheio de dentes. Eu sorri, desconfiado. No tempo que levou do sexto ao décimo quinto andar, fiquei com medo. Essa história me assustou um pouco. É daquelas coisas que nunca pensamos que um dia pode acontecer.&lt;br /&gt; Ela continua no sexto andar, e eu no décimo quinto. Hoje, apenas nos ignoramos educadamente. E já estou à procura de um novo escritório, bem longe dali.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-3544722122305794321?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/3544722122305794321/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=3544722122305794321' title='23 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/3544722122305794321'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/3544722122305794321'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2008/11/sem-crase-mesmo-primeira-vista.html' title='A (sem crase mesmo) primeira vista'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>23</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-5496242281659103666</id><published>2008-10-20T21:10:00.000-07:00</published><updated>2009-03-23T21:45:02.113-07:00</updated><title type='text'>Vida comprimida</title><content type='html'>Logo às seis da manhã, Seu Valdemar já se encontrava em pé, de pijama e chinelos, esperando a água fervente descer pelo coador de papel. Com a xícara na mão, caminhou com dificuldade até a sala da acanhada casa da Rua Carlos Sampaio, 36. Fez menção de pegar o jornal que parecia se esforçar em permanecer da mesma cor, mesmo após quase duas semanas esquecido em cima do aparador. Junto ao jornal, uma caixa de remédio acompanhada de um bilhete grafado à mão, com os dizeres: “Tomar um comprimido ao acordar”. &lt;br /&gt;- Para que serve este aqui? – resmungou, enquanto examinava a caixa e tentava descobrir se o tal comprimido era para a pressão ou para as dores nas juntas.&lt;br /&gt;Sem paciência para quebrar a cabeça, acabou ligando o rádio. A vinheta que anunciava o programa esportivo desenhou um misto de ansiedade e irritação no rosto coberto de marcas de expressão. Após pouco mais de dez minutos do início da atração, Seu Valdemar já se arrumava na poltrona carcomida, como se lutasse para se livrar de um exército de pulgas. De súbito, acabou se exaltando.&lt;br /&gt;- Quem esse sujeito pensa que é? Levei o Palestra nas costas por quase vinte anos e veja só como estou! Isso não tem cabimento! – berrava, entre um pigarro e outro, despertando a ira dos cachorros da vizinha ao lado.  &lt;br /&gt;Com o rádio ainda ligado, lembrava-se do dia anterior. No caminho da farmácia, ninguém o reconheceu. Esforçou-se, sorriu, andou devagar e nada. Ainda por cima, foi ignorado pelo balconista e quase foi atropelado no caminho de volta. Nada disso entrava na cabeça de Seu Valdemar.&lt;br /&gt;Tomou a foto de Dona Irene em uma das mãos, e um broche com o distintivo do Palmeiras na outra. Observava as pessoas na calçada. Eram muitas as histórias, mas poucas como a dele. Fechou os olhos, e sentiu a vibração da arquibancada. Num estalo, acabou se lembrando.&lt;br /&gt;- Para a memória! O remédio é para a memória! – exclamou com convicção.&lt;br /&gt;Ficou imóvel, encarando a caixa em cima do aparador. Imaginava como seriam as coisas se todos tomassem uma pílula dessas ao acordar. Em dado momento, voltou a hesitar. Não tinha certeza se o remédio era para a memória ou para o coração. Tomou o comprimido com um pouco de água. De qualquer modo, mal não ia fazer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-5496242281659103666?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/5496242281659103666/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=5496242281659103666' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/5496242281659103666'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/5496242281659103666'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2008/10/vida-comprimida.html' title='Vida comprimida'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-3206655110028813712</id><published>2008-05-16T16:31:00.000-07:00</published><updated>2008-05-16T16:33:14.734-07:00</updated><title type='text'>Do amor e outras falácias</title><content type='html'>À nebulosa luz da metrópole, nasceram no mesmo ano, Pedro e Ana. Tirando a fase oral e as vezes que envergonharam seus respectivos pais, não há nada de essencial para esta história, até ambos completarem os doze anos de idade.&lt;br /&gt;No primeiro dia de aula da sexta série, os olhos inocentes e marejados de Pedro farfalhavam como borboletas ao redor da pele de um veludo digno de um manto imperial do rosto de Ana. Os louros e reluzentes cabelos da menina balançavam estonteantemente, provocando em Pedro um estado de quase hipnose. Em poucos minutos, o garoto definiu: era ela.&lt;br /&gt;Os anos que se seguiram serviram para confirmar o que tão cedo já se via. Ana tinha uma beleza vistosa, era popular entre meninos e meninas de sua idade e possuía um sorriso capaz de conquistar desavisados. Já Pedro não tinha a mesma sorte. No alto de seus quinze anos, não poderia se dizer que era dos mais extrovertidos. Escondia-se atrás dos longos e ensebados cabelos, e só encontrava motivos para sorrir em público quando conseguia escapar das corriqueiras surras que levava dos garotos mais velhos no colégio. Entretanto, o garoto possuía algo que o tornava, acima de tudo, virtuoso. Era capaz de amar desinteressadamente, mesmo que em segredo. Um amor quase platônico. Quase. Eram apenas duas as barreiras a serem transpostas: a timidez dele e a altivez dela. &lt;br /&gt;No último ano do colégio, ambos já haviam trilhado certo caminho nas relações amorosas. Coisas da juventude. E sem sombra de dúvidas, Ana mostrava-se infinitamente mais habilidosa, o que não era propriamente um sinal de sucesso. Ela terminou seu terceiro relacionamento de longa duração na mesma semana na qual Pedro deu seu primeiro, desastroso e esperado beijo. &lt;br /&gt;Até aquele momento, Ana praticamente ignorou a existência de Pedro. Para ela, ele era o cabeludo asqueroso que sentava no fundo da sala de aula (não tinha certeza se seu nome era Pedro, Paulo ou Luiz) e que, certa vez, ouviu sua voz ao pedir desculpas por derramar refrigerante em seu uniforme novo. Ele sonhava, e tentava convencer-se de que Ana também o amava em segredo.&lt;br /&gt;Com o término do período escolar e as crescentes e bruscas transformações em suas características mais salientes, Pedro passou a se dar conta de coisas que até então não tinham tanta importância. Percebeu que suas fantasias amorosas com Ana, mesmo sem perder o furor exagerado e embebido em emoção dos romances de Federico Fellini, passaram a incorporar um generoso ar latino-incandescente à lá Almodóvar. Concluiu também que o derradeiro baile de formatura se aproximava, e com ele, o ponto de partida para que todos seguissem com suas vidas, separadamente. Inclusive ele e Ana.&lt;br /&gt;Durante o baile, o incômodo da iminência de jamais encontrar Ana novamente, quanto mais tê-la em seus braços, foi aterrador. Em meio a risos altos, música entorpecente, comentários inoportunos de parentes ainda mais inoportunos e intensos goles de um espumante de procedência duvidosa, houve um momento no qual, de solavanco, o rapaz despertou de seus devaneios. Era ela. Sentiu-se como no primeiro dia de aula da sexta série, apesar de já calçar quarenta e três e ter quase o dobro do peso que tinha aos doze anos de idade. Ela preservava a inocência de menina, embora seus olhos transparecessem o orgulho e a imponência de uma mulher madura. Naquele momento, contrastando com uma multidão que dançava frenética e empolgada, densas lágrimas marcavam o precioso veludo do rosto de Ana. Pedro conhecia Ana melhor do que ninguém. Talvez até melhor do que ela mesma. Por isso, não tinha dúvidas quanto ao motivo que fazia Ana chorar. Era do tipo valentão, esportista e perdulário. Acima de tudo, um cafajeste. Combinação perfeita para atrair as mulheres hoje em dia. &lt;br /&gt;Os olhos de Pedro não decidiam-se entre contemplar com pesar o rosto de feições tristes de Ana, iluminado apenas por um par de velas no canto mais escondido do salão, ou fulminar a face sarcástica e vitoriosa no rosto do quarto ex-namorado de Ana, que agora cercava-se de figurões de mesmo porte e meninas que não valiam sequer o esforço de uma noite, apesar das dispendiosas quantias gastas em maquiagem importada. A mão direita de Pedro fechou-se como uma rocha trêmula. Não sabia se pela incontrolável vontade de desferir um soco cinematográfico no rosto do tal canalha ou se por sentir como se o próprio coração se contorcesse na palma da sua mão, e a qualquer momento pudesse escapar-lhe por entre os dedos. Apesar da situação pouco favorável, essa era talvez sua grande e última oportunidade. Lembrou-se por um instante da pilha de presentes de aniversário, Natal, dia dos namorados e outras datas comemorativas que comprou para Ana, mas nunca teve coragem de entregar. Naquele momento, assim como os sentimentos de Pedro, acumulavam poeira em um canto qualquer. &lt;br /&gt;Ao abrir os olhos, sentiu como se tivesse tragado uma boa quantidade do mais puro ar da montanha. Levantou-se com ímpeto. De peito estufado, trajava um terno muito bem cortado e passava constantemente as mãos nos cabelos caprichosamente penteados para trás. O penteado revelava harmoniosos traços e sinceros olhos amendoados que raramente se faziam notar. Marchou em direção ao outro lado do salão, decidido. No caminho, pensamentos percorriam sua mente em um curtíssimo espaço de tempo. Como iria abordá-la? Pensou em dizer algo como “sabe, eu tive um sonho...”. Mas a imagem do discurso de Martin Luther King anulou definitivamente tal possibilidade. Estava a poucos passos de Ana, e sua postura austera já havia sido substituída por um andar arqueado e um rosto coberto de suor. Ana tinha o rosto rosado e marcado devido ao choro prolongado. A menina escondia o rosto com as mãos, e não pôde ver que Pedro estava ali. As palavras não saíram. Tudo o que o jovem rapaz conseguiu fazer foi tirar o lenço de linho que ganhara do avô do bolso do paletó e, com as mãos trêmulas, estender o braço para entregá-lo à Ana. A moça ergueu a cabeça. Seus olhos fitaram os dele, que buscava enterrar a cabeça entre os ombros quase horizontais, lembrando um súdito em reverência. Pedro ainda teve tempo de contemplar um breve e tímido sorriso nos lábios de Ana, antes que ela partisse em disparada em direção à saída do baile.&lt;br /&gt;Sete longos anos se passaram, até que em meio a contas de água, luz e telefone, chegou pelo correio um convite destinado a um engenheiro elétrico de nome Pedro. As letras douradas em alto relevo destacavam um encontro de ex-alunos de sua turma de formandos. As muitas mulheres que passaram por sua vida, de súbito, perderam totalmente o sentido, como se uma borracha tivesse as apagado de suas memórias instantaneamente. Mas a imagem de Ana escancarou-se em sua mente, saindo do lugar onde Pedro enterrou-a. A chama ardeu, seu coração disparou. Tinha doze anos novamente. &lt;br /&gt;Com sua melhor roupa, sua melhor colônia e a barba feita, Pedro estava lá, antes da hora. Muitas pessoas chegavam e o cumprimentavam, mas ele duvidava que a maioria sequer tivesse qualquer lembrança da sua existência. Quando já perdia a paciência com o barulho e a competição sobre quem podia contar mais vantagens, ela entrou. Sua beleza era ainda mais arrebatadora. Por mais que conseguisse disfarçar melhor do que na época do terceiro ano, Pedro suava frio. E o nervosismo aumentou em proporções gigantescas quando ele percebeu que ela vinha em sua direção. Parou diante dele, que permaneceu sentado com medo de desabar no chão por causa das pernas trêmulas. Vasculhou a bolsa e, depois de alguns segundos, tirou um lenço de linho. “Acho que isso é seu” - disse sorrindo, entregando o lenço a Pedro. Incrivelmente, Pedro engatou um papo descontraído com a moça, fazendo com que, após o término do evento, fossem a um bar que ficava perto dali. Pedro contou um pouco de sua vida, que pareceu não ter sido nem um pouco emocionante até ali. Ficou sabendo então que Ana era jornalista, e que sofreu com três namorados que a traíram, e que se casou, mas divorciou-se devido às agressões físicas que sofria constantemente. &lt;br /&gt;Durante um mês, os dois continuaram saindo juntos. Tornaram-se cada vez mais próximos, e ficava claro que Ana estava cada vez mais envolvida e encantada com o rapaz que ignorou por quase toda a vida. E em mais uma das fantásticas noites que os dois passaram juntos, o sonho de Pedro se realizou. Quase não acreditava, e teve que abrir os olhos para ter certeza de que estavam se beijando. E acreditou ainda menos quando, segundos depois, sentiu primeiro um empurrão, depois um forte ardor no rosto devido ao forte tapa que levou de Ana, seguido da quente viscosidade de um cuspe que escorria pelo seu rosto. A moça estava descontrolada. Correu gritando que não podia ser, e que por mais que tentasse, sabia que eram todos iguais.&lt;br /&gt;Sobre Pedro, pouco se sabe. Ana ficou sabendo que está na Europa, e que trocou de sexo para também poder pisar e falar mal dos homens de hoje. Seu nome também mudou. Agora se chama Luana. Ou Samara. Ou Patrícia. Ana não tem certeza.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-3206655110028813712?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/3206655110028813712/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=3206655110028813712' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/3206655110028813712'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/3206655110028813712'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2008/05/do-amor-e-outras-falcias.html' title='Do amor e outras falácias'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-1877093342165650221</id><published>2007-10-16T10:40:00.001-07:00</published><updated>2007-10-16T10:40:45.447-07:00</updated><title type='text'>Adeus</title><content type='html'>Vou, se não choro.&lt;br /&gt;Chego, se não perco.&lt;br /&gt;Sento, se não caio.&lt;br /&gt;Bebo, se não padeço.&lt;br /&gt;Grito, se não posso.&lt;br /&gt;Sorrio, se não mato.&lt;br /&gt;Seguro, se não me despedaço.&lt;br /&gt;Respiro, se não me afogo.&lt;br /&gt;Levanto, se não agüento.&lt;br /&gt;Volto, se não me entrego.&lt;br /&gt;Paro, se não penso.&lt;br /&gt;Pulo, se não suporto.&lt;br /&gt;Acabo, se não sonho.&lt;br /&gt;Vou, se não choro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-1877093342165650221?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/1877093342165650221/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=1877093342165650221' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/1877093342165650221'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/1877093342165650221'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2007/10/adeus.html' title='Adeus'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5409569588528360591.post-218635121792702306</id><published>2007-08-17T19:45:00.000-07:00</published><updated>2007-08-17T19:46:27.925-07:00</updated><title type='text'>Lembranças de Uma Tarde Breve</title><content type='html'>Na simplicidade de poucas cores&lt;br /&gt;Reside a beleza de um olhar sóbrio, intrépido.&lt;br /&gt;Por entre frestas e vieses&lt;br /&gt;Atravessando o mais translúcido cristal&lt;br /&gt;Traz para dentro o astro&lt;br /&gt;Na mais pacífica calmaria de uma tarde breve.&lt;br /&gt;E quando a luz adormece&lt;br /&gt;Fúnebres louças acompanham o trêmulo reflexo.&lt;br /&gt;A escuridão não é vencida pelo atrevimento de uma vela&lt;br /&gt;O vazio precede a triste lembrança&lt;br /&gt;De uma solidão perpétua e incolor&lt;br /&gt;De objetos estáticos, congelados em sua morbidez.&lt;br /&gt;Doce lembrança da tarde, da calmaria, da paz luminosa.&lt;br /&gt;E no meio da noite profunda, perde-se a sombra da alegria que restou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5409569588528360591-218635121792702306?l=otabloidesujo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/feeds/218635121792702306/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5409569588528360591&amp;postID=218635121792702306' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/218635121792702306'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5409569588528360591/posts/default/218635121792702306'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://otabloidesujo.blogspot.com/2007/08/lembranas-de-uma-tarde-breve.html' title='Lembranças de Uma Tarde Breve'/><author><name>Lucas Guratti</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02263105114972252154</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
